revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                     ISSN 2236-2037

Jos Luiz B. NEVES

Marx, entre Marx e Foucault

 

(nota sobre o ltimo livro de Pierre Dardot e Christian Laval)1

 

Pierre Dardot e Christian Laval obtiveram certo reconhecimento ? limitado entre o pblico brasileiro, provavelmente por falta de tradues ?, escrevendo sobre neoliberalismo2. Segundo eles, o fenmeno, estratgia de poder encontrada pelo capital para impulsionar-se para fora da crise dos anos 1970, explica-se menos como um programa econmico estrito senso (privatizaes e espoliaes do fundo pblico) do que como uma certa racionalidade, certamente annima e sem artfice, a organizar a conduta de governos e de governados por meio de prticas de estilo concorrencial. Assim, no seria forosamente a ?privatizao? das instituies pblicas o que caracterizaria a ordem neoliberal (ao menos, no em primeiro plano), e sim a difuso, no interior dessas instituies, de tcnicas e regras gerenciais cuja eficcia passaria a moldar as aes e ? por que no? ? as subjetividades que ali se desenvolvem. Por meio de expedientes aparentemente banais como as constantes avaliaes de resultado, medies quantitativas de desempenho e premiaes correspondentes, vai-se criando em hospitais, escolas (universidades?), tribunais de justia, etc. o que os autores chamam de ?uma situao de mercado sem mercadorias?, isto , uma acirrada dinmica competitiva que, por ocorrer onde ocorre, no produz bens ou valores (nessa medida, o sistema de prmios e preos desse ?quase-mercado? , nas palavras mesmas dos autores, ?autorreferencial?), mas que contribui, ainda assim, para difundir a lgica concorrencial por toda a sociedade intra e extramercantil, homogeneizando assim essas duas esferas. A essa nova racionalidade, sustentam os autores, correspondem tambm novas formas de subjetivao, resultado da interiorizao dos padres de medida das prticas concorrenciais. ?Para alm da transformao do Estado?, dizem os autores, o que est em questo no neoliberalismo ? a gesto de populaes, no sentido de Michel Foucault, isto , enquanto ela atinge os prprios indivduos em seu modo de viver?3.

Postos prova a cada momento por mecanismos de avaliao, compelidos a produzirem o mais possvel dentro e fora do tempo de trabalho, recompensados por trabalharem muito e de modo sempre inovador, os novos trabalhadores buscam a maximizao de seu desempenho (medido, claro, pela rgua da sociedade-empresa em questo), aperfeioando-se a todo instante e melhorando sua ?performance?. Com isso, dizem os autores, uma nova tcnica de controle que entra em cena: ?trata-se de governar mais eficazmente os indivduos, faz-los produzir mais, abandonando os antigos procedimentos administrativos de poder, julgados ineficazes?4. O neoliberalismo indicaria, pois, uma mudana na forma do comando, que passaria de um modelo jurdico-administrativo, calcado na subordinao de indivduos a uma ordem superior que os tornaria passivos, a um modelo concorrencial, mais vantajoso porque capaz de comandar no momento mesmo em que d a iluso, aos indivduos, de que no esto sendo comandados por ningum. Tem-se, pois, trabalhadores ?mais ativos, mais autnomos na busca de melhores solues?5, mas nem por isso menos obedientes. Assim, a racionalidade neoliberal ? essa espcie de lgica prtica objetiva, regrada por prticas institucionais microscpicas ? comanda governantes e governados, produzindo subjetividades que consentem em serem dominadas por esse mecanismo, em vias de autonomizao, mas dependente, paradoxalmente, da atividade dos mesmos indivduos que subjuga.

Trata-se, sem dvida, de uma estratgia de poder, mas de um poder ?microscpico?, posto em marcha por prticas em geral desapercebidas seja pelo modelo jurdico da soberania, seja pela anlise econmica do marxismo tradicional. Para os autores, explicar o neoliberalismo pelo fato de que ?o grande autmato do capital no pode parar de colonizar novos territrios para aumentar diretamente sua produo de valor?6 ( maneira da acumulao primitiva, portanto), por verdadeiro que seja, deixa na sombra o essencial, a saber, a ?construo poltica? a em jogo. Resta saber o que Dardot e Laval entendem aqui por ?construo poltica?, irredutvel soberania estatal e dinmica autnoma da economia7. preciso citar uma longa passagem, que tem ademais o benefcio de resumir a opinio dos autores.

A concorrncia, mais do que a equivalncia entre produtos realizada pelo mercado, assim o operador de uma homogeneizao social das condies de produo. (...) Ela se torna uma espcie de ?lei vital? que se impe a todos e em todas as circunstncias. A abstrao quantitativa vive ento da sua prpria vida, ela se torna, como diz Marx, ao mesmo tempo natural e misteriosa, ela se impe aos ofcios, ela despreza o sentido que os trabalhadores do sua tarefa, ela dobra todas as relaes sua regra, e at submete as elites polticas e as foras sociais que trabalham para ampliar seu campo de aplicao. Que essa extenso imprevista da ?lei? do valor proceda inteiramente de uma construo poltica, e no de um processo espontneo de autovalorizao do capital, isso no autoriza que vejamos a nela o resultado de uma maquinao: falar de uma atividade de construo no implica de modo algum que o que construdo o seja em virtude de um plano elaborado de antemo (...). Ns aprendemos com Marx: o produto da atividade dos homens no o produto de sua conscincia ou de sua vontade. No isso o que torna possvel que o produto de sua atividade escape a seu prprio controle ao ponto de dominar precisamente sua atividade?8

A ?razo neoliberal?, a lgica da concorrncia disseminada por todos os cantos, se posta em funcionamento por prticas especficas, tende a autonomizar-se e passar a dominar os agentes que a efetivaram em primeiro lugar. Essa construo poltica no fruto nico da vida do capital, nem projeto consciente de arquitetos polticos. Dito de outro modo, essa forma de poder no se l nem por anlise econmica, nem por anlise jurdica. Explicitamente, Dardot e Laval buscam ento refgio na noo marxiana de atividade. Como se entende esse conceito?

No texto de 2010, como se viu, a descrio da razo neoliberal feita com os instrumentos de Foucault. Mesmo se entendem essa racionalidade como forma de disseminao da concorrncia capitalista ? e para isso se valem tanto de Marx quanto de Schumpeter ?, aquilo que a sustenta so dispositivos de corte foucauldiano. De modo que, ao se buscar uma definio positiva da ?construo poltica?, podia-se esperar dos autores que seguissem aqueles seus mesmos passos rumo microfsica do poder, tanto mais que havia sido forjada, pelo prprio Foucault, para dar conta do ponto cego que nem as anlises jurdicas da soberania, nem a crtica econmica de estilo marxista haviam conseguido desvendar (sabe-se, alis, que o filsofo pretendeu mostrar a cumplicidade secreta desses dois modelos supostamente rivais). E, com efeito, os traos de um poder constitudo por uma rede de prticas microscpicas, que se estende por toda a sociedade e acarreta subjetivaes correspondentes, tendendo ademais a se autonomizar em relao ao consciente dos agentes, e que contudo no um dado a ?submet-los?, mas um resultado de suas prprias prticas, tudo isso pode ser encontrado em certas leituras de Foucault. Por que ento recorrer, ao contrrio do que seria o mais bvio, ao conceito de atividade em Marx? E, sobretudo, o que se torna esse conceito, sobredeterminado como est pelo contexto foucauldiano em que ocorre?

At pela heterodoxia, a empreitada do maior interesse. Pensar Marx e Foucault juntos, autores que primeira vista no se veriam no mesmo time, teria hipoteticamente o benefcio de preencher o lado faltante da grade conceitual de cada um deles. , por exemplo, o que sugere Balibar, num texto que, ainda que no citado por nossos autores, permite focar melhor o problema que est diante deles: Foucault mostraria, segundo ele, como

os procedimentos disciplinares fazem crescer a utilidade dos corpos neutralizando sua resistncia e, mais geralmente, permitindo a unificao dos dois processos de acumulao dos homens e de acumulao do capital. A ?disciplina? e o ?micropoder? (...) vm inserir-se exatamente no ponto do ?curto-circuito? operado por Marx entre a economia e o poltico, a sociedade e o Estado, em sua anlise do processo de produo (permitindo assim conferir-lhe a consistncia de uma ?prtica?)9.

Trocando em midos, a microfsica do poder seria capaz dar a consistncia de uma prtica poltica s anlises econmicas de Marx ? se no outra coisa, domar os corpos pena do trabalho ?, que por sua vez lhe forneceriam uma espcie de lastro material10. Isso tudo, claro, hipoteticamente. Resta saber se esses dois universos, o foucauldiano e o marxiano, de cuja aproximao se espera a suplementao daquilo que ?faltaria? a cada um, de direito possvel. Ou, perguntando de um outro modo, o qu, em Marx, no mais possvel quando lido a partir de Foucault? Deixemos, por enquanto, a pergunta no ar, para v-la reaparecer, com os ajustes necessrios, no ltimo livro dos autores.

*

Salvo engano, esse o pano de fundo terico mais amplo de Marx, prnom: Karl, ltimo livro dos autores que acaba de ser lanado pela Gallimard11. Em primeiro plano, trata-se de uma interpretao rigorosa da obra de Marx, e os autores no se poupam das necessrias incurses pelos espinhosos universos da lgica hegeliana e da economia poltica. Pela pretenso exaustiva, pelo cuidado histrico e pela exposio sistemtica da doutrina de conjunto, j se trata de um livro notvel. Seu alcance, contudo, vai alm da ?explicao de texto? em sentido trivial, oferecendo uma leitura interessada, na boa acepo hoje fora de moda em meios universitrios, erudita quando preciso, atenta s ressonncias contemporneas quando relevantes. Esse interesse dos autores, que leem Marx com vistas sua atualidade, se traduz num ponto de vista mais ou menos confessado, que o de Foucault. Felizmente, isso no significa que cedam s palavras birrentas e razoavelmente injustas que Foucault, aqui e ali, dirigiu contra a suposta teleologia redentora do marxismo. Ao contrrio, sem baratear nenhum dos lados, o melhor Foucault que orienta a paciente leitura de Marx, tornando-se ento o grande ponto de fuga do livro. E isso, no apenas porque o livro termina com uma previsvel crtica foucauldiana idia marxista de emancipao ?do homem?, mas sobretudo porque sua tese central uma complexa projeo, no interior de Marx, da oposio entre Marx e Foucault. Isso significa que, no livro de Dardot e Laval, Marx se desdobrar em dois ? ou melhor, em duas lgicas, heterogneas e tendendo antinomia, que percorreriam todos os textos do filsofo e permaneceriam sem soluo de unificao.

Vejamos rapidamente a tese que estrutura o livro. Haveria, para os autores, duas lgicas heterogneas operando em Marx, uma ?lgica do capital como sistema acabado? e uma ?lgica estratgica do enfrentamento?: isto , por um lado, uma lgica prpria efetividade do capital, que cria as condies de sua reiterao e subordina a si, no processo, os agentes; por outro, uma lgica que se desenrolaria estritamente no interior da luta entre as classes, sem exprimir direta e necessariamente os interesses econmicos em princpio envolvidos. Mas no s isso. Se de um lado se tem a autoposio de um sujeito que delimita, quase automaticamente, os interesses objetivos a serem expressos na luta de casses, de outro, ter-se-ia uma lgica estratgica segundo a qual as classes se constituiriam uma outra na prpria luta e na relao de antagonismo entre elas, quase que de modo independente em relao s posies prvias determinadas pela produo capitalista12. Como veremos, essa ?lgica estratgica? representa, no argumento de Dardot e Laval, o ?momento foucauldiano? de Marx.

Os autores reconhecem, contudo, que Marx nem sempre viu com bons olhos essa idia de uma quase autonomia da luta (idia que, para eles, seria o a priori de leitura dos textos histrico-polticos). Antes, Marx teria tentado incessantemente fazer uma lgica ?decorrer? ou ser absorvida pela outra ? quase sempre, subordinar a luta lgica do capital ?, porm sem jamais obter sucesso. A fora da idia de comunismo, entretanto, residiria na ligao das duas lgicas: um movimento interno e necessrio de autodissoluo do capitalismo que, convenientemente, se completaria atravs da ao contingente do proletariado, coveiro desse modo de produo, conciliando ento necessidade e contingncia. Para os autores, contudo, os textos de Marx jamais teriam conseguido efetivamente ligar essas duas perspectivas. Da resultaria que, sem essa ligao, a idia do comunismo surgiria, em Marx, como uma soluo imaginria, projetada no futuro, a funcionar como um ?termo mdio imaginrio?, fazendo encontrarem-se, num ponto sublime da histria, a autodestruio imanente do capital e a luta parteira da nova forma social. ?A ao prtica dos proletrios se funde com as tendncias objetivas do modo de produo capitalista, os objetivos polticos que eles se do coincidem com a gestao do comunismo no seio mesmo do capitalismo? (p. 109). Para Dardot e Laval, essa soluo imaginria gua passada, e a atualidade de Marx estaria precisamente no diagnstico da ciso entre as duas lgicas13.

Isso posto, sua tese se complexifica enormemente ao ser construda ao longo do livro. Isso porque, em primeiro lugar, a oposio entre as duas lgicas no to estanque. Por um lado, a ?lgica do capital? j contm uma concepo prpria da luta de classes, ainda que os autores pretendam coloc-la na conta da ?soluo imaginria?, isto , da idia a seu ver inatual de que o capital est grvido da nova forma social e de que o papel da luta de classes se limita a realizar essa tendncia. Por outro, a ?lgica estratgica do enfrentamento? no uma estratgia militar sem nenhum fundamento material, parecendo antes estar calcada numa certa ?atividade prtica dos homens?, ainda a se examinar. Acresce que, todavia, Dardot e Laval pretendero mostrar que tanto a ?lgica do capital? quanto a ?atividade prtica dos homens? exprimem duas maneiras distintas encontradas por Marx para assimilar, em seu interesse, a lgica hegeliana. Grosso modo, estariam em questo duas concepes de atividade, forjadas atravs da leitura da lgica da reflexo: de um lado, uma atividade ? que Marx encontrar no capital ? caracterizada pela relao a si e pela reposio dos pressupostos, de outro, uma atividade ? os autores a chamaro de ?atividade prtica ou objetiva dos homens? ? incapaz de pr seu pressuposto, permanecendo assim condicionada do exterior por ?pressuposies efetivas? no produzidas por ela. Os autores pensam, aqui, na atividade prtica de geraes que, encontrando diante de si condies historicamente j dadas (porm produzidas por geraes passadas), transformam essas condies assim que as retomam (e, no processo, se transformam a si mesmas), porm sem jamais abolir definitivamente sua dependncia em relao exterioridade. (De passagem, observe-se que Dardot e Laval partem de uma leitura de textos da Ideologia alem, mas, no por acaso, no do maior relevo, pelo menos nesse contexto, ao conceito de modo de produo, que, dentro do argumento dos autores, tenderia ?lgica do sistema?)14. A oposio das duas lgicas se funda, portanto, na oposio de duas concepes de atividade, uma que interioriza e repe seus pressupostos, pondo-se a si mesma (a atividade do capital), outra que permanece condicionada por pressuposies efetivas no-reflexivas (a atividade dos homens). Seno, vejamos.

Comecemos esmiuando essas duas maneiras de conceber a atividade. Em princpio, ambas conservam algo da matriz hegeliana, e, ainda que de modo muito limitado, preciso j esclarecer o que isso significa. Acertadamente, Dardot e Laval fazem dos operadores hegelianos da posio e da pressuposio o ncleo lgico da ?maneira marxiana de pensar?. Grande acerto, ainda mais se se considera a tradio francesa do marxismo que tm como pano de fundo. No notvel captulo em que se detm com mais demora no assunto, elucidam a absoro marxista dessa lgica originalmente idealista situando Marx no debate jovem hegeliano acerca do primado do ser ou da conscincia (?espinosismo? ou ?fichteanismo?) e mostrando como a sada marxista ? pelo menos, a primeira delas ? reside numa espcie de dissoluo dessa oposio por meio do conceito de prxis. Observe-se tambm que a cuidadosa exposio que fazem da lgica hegeliana da reflexo, acompanhando o comentrio de Dieter Henrich, no poupa ilustraes atravs da filosofia da religio, o que de certo modo torna ainda mais contra-intuitivo o transplante materialista dessa lgica15. A questo est em saber como Marx retoma a lgica da reflexo sem cair nas armadilhas da relao a si de um sujeito que, como a Idia ou Deus criando o mundo, pe seu outro apenas para reabsorv-lo em patamar mais elevado. Dito de modo muito rudimentar, evitar o idealismo significaria, em primeiro lugar, neutralizar a tese de um pensamento que s se relaciona a si mesmo, isto , de um pensamento capaz de interiorizar, atravs da reflexo, o dado (que no , ento, o ?objetivo? diante do ?subjetivo?), transformando-o em seu pressuposto, posto por ele mesmo e dependente, assim, do prprio pensar. , alis, o que Marx critica em Hegel no clebre texto dos Grundrisse: ?Hegel caiu na iluso de conceber o real como resultado do pensamento que sintetiza-se em si, aprofunda-se em si e movimenta-se a partir de si mesmo?, tomando a atividade do pensamento no como reproduo mental do concreto efetivo (sntese de mltiplas determinaes operando na efetividade), e sim como ?processo de gnese do prprio concreto?16. Observe-se ademais que esse processo de reflexo objetiva (pelo qual o imediato se pe como dependente de um pressuposto, autnomo, para neg-lo em sua autonomia, faz-lo dependente de sua atividade ponente e assim voltar a si pondo-se a si mesmo como autnomo) no , no caso, um processo temporal, porm lgico e especulativo, o que coaduna com o idealismo em pauta. Ora, para Marx tratar-se-ia, segundo os autores, de conservar essa noo de reflexo evitando, porm, cair imediatamente nas malhas de um sujeito ponente capaz de pura relao a si, retomando em fim de contas as propriedades especulativas da Idia hegeliana. A tese de fundo dos autores (da qual, na verdade, a tese das ?duas lgicas? subsidiria) a de que no haveria uma, porm duas maneiras que Marx teria encontrado para acertas as contas com Hegel, e a noo de ?atividade prtica dos homens? ? grosso modo, a bem conhecida prxis ? seria apenas uma delas. De maneira muito geral, cada uma das concepes de atividade remete a um diferente tipo de pressuposio: as ?pressuposies efetivas?, no caso da atividade prtica dos homens, a ?pressuposio reflexiva?, no caso da lgica do capital, porm acomodada dentro de um quadro que limita sua validade para o interior de um modo de produo e aloca a atividade de sntese no prprio real, a ser apenas reproduzida na exposio cientfica. Vejamos isso tudo mais de perto.

Em geral, o primeiro conceito de atividade estaria presente em textos da Ideologia alem, e fundaria, em sentido lato, as anlises em torno da luta de classes na Frana (observemos, de passagem, que no h aqui qualquer flerte com o velho corte epistemolgico, e sim a circunscrio dos textos atinentes ?lgica estratgica do enfrentamento?)17. Consistiria, em primeiro lugar, em tomar como modelo de ?atividade? no o pensamento, e sim a ?atividade prtica? dos homens concretos, alada por sua vez a condio exterior e insupervel do exerccio do pensamento18. Como prxis, essa atividade objetiva transformao das condies materiais, recebidas passivamente das geraes passadas, e ao mesmo tempo transformao dos sujeitos engajados nessa transformao. Ela , assim, uma atividade condicionante e condicionada ao mesmo tempo. Porm, no o maneira da reflexo especulativa, ponente e pressuponente ao mesmo tempo: no o mesmo sujeito que pe as pressuposies de que parte, as pressuposies no so ?falsos imediatos? a serem interiorizados em segunda etapa. Tornando-a dependente das pressuposies efetivas, exteriores e no-reflexivas, lana-se a atividade dos homens imediatamente no tempo. A distenso temporal entre geraes , em verdade, central para que a atividade prtica no d azo ?relao a si?. Jamais uma gerao pe os seus prprios pressupostos: ela os recebe como condies exteriores, produtos verdade de atividade humana, porm da atividade de geraes passadas. verdade que ao assumirem tais condies j as transformam, de modo que h passividade-atividade simultneas; mas jamais pem seu prprio ponto de partida, e por isso o processo no se identificar relao a si de um mesmo sujeito ponente-pressuponente ao mesmo tempo19. Como no jamais a mesma gerao que pe as condies de que parte sua atividade, no h aqui reflexo especulativa propriamente dita, dado que no h um mesmo sujeito a se por como ?condicionado? pelas pressuposies efetivas (donde alis a questo de saber se, para alm do termo ?pressuposies efetivas?, o uso do lxico da pressuposio , no limite, ainda vlido). Noutras palavras, a gerao atual condicionada pelas ?pressuposies efetivas?, mas isso definitivamente: ?a atividade prtica no pe antes de si mesma as condies para melhor retornar em si mesma e produzir-se assim como sujeito da histria, ela de partida condicionada por resultados que ela mesma no ?ps?, pela simples razo de que foram ?postos? independentemente dela e anteriormente a ela pela atividade de geraes antigas? (p. 191)20.

Com a crtica da economia poltica, estamos num outro universo, diante de um outro conceito de pressuposio. At certo ponto, volta-se atividade do sujeito que pe e repe seus pressupostos, e, com isso, reflexo hegeliana. Evidentemente, trata-se agora de um outro sujeito, o capital: de sua autoposio objetiva que se trata agora. Assim, por exemplo, a relao entre mercadoria e capital: pressuposto do qual se parte, a mercadoria revela-se em segunda etapa posta por aquilo a que ela d lugar, a saber, o capital. Por que essa autoposio do capital no retoma, sem mais, as propriedades hegelianas da Idia? Como no espao curto de uma resenha preciso resumir, retomemos apenas um dos argumentos utilizados por Dardot e Laval. Os autores recordam a distino genial, feita nos Grundrisse, entre ?histria contempornea? e ?histria do vir-a-ser?. Como se sabe, na ordem do vir-a-ser, cada novo modo de produo parte de elementos liberados pela dissoluo de outros modos, tendo, portanto, uma gnese ?externa? e ?temporal?, ao passo em que, na ?histria contempornea?, importa observar como os pressupostos de que parte o modo de produo so sempre por ele repostos, isto , como o modo de produo se autonomiza em relao a seus pressupostos ?naturais?, passando a rep-los por sua conta e vivendo, assim, da recriao das prprias condies de sua reiterao. Com essa distino, Marx pode encontrar no capital o processo da autoposio (na histria contempornea, o capital uma relao a si) sem por isso retir-lo do tempo (na ordem do vir-a-ser) e eterniz-lo. Isso torna o ?crculo da reflexo? do capital, que tende autonomizao, fraturado por uma gnese temporal no produzida por ele. Pense-se, por exemplo, na separao de trabalhador e meios de produo, condio exterior ao capital, no sentido de no posta por ele, mas da qual depende para vir-a-ser: ?acumulao original o processo de produo das condies de existncia do capital, portanto o processo do vir-a-ser do capital. A acumulao do capital o processo de reproduo dessas mesmas condies, portanto o processo de sua posio pelo capital que veio-a-ser? (idem, p. 548). O modo de produo tem uma gnese temporal e contingente, mas uma vez que veio-a-ser, autonomiza-se repondo suas condies de reiterao e, no caso do capitalismo, se no se eterniza sem mais, tambm devido natureza contraditria de sua reproduo, que o leva, por um processo interno e necessrio, sua dissoluo.

Isto posto, pode-se agora observar como a oposio daquelas ?duas lgicas? decalcada desses dois modos de pensar a pressuposio. Na lgica do ?sistema acabado?, em regime de ?histria contempornea?, o capital se desenvolve como totalidade que subordina a si todos os elementos da sociedade, a inclusas as classes, que, desse ponto de vista, tornam-se portadoras de um processo autnomo de valorizao: ?sua histria coincide com a do capital?, as classes ?no tm vida prpria?. A rigor, tem-se apenas o capital e seu desenvolvimento, que se autonomiza em relao a seu ponto de partida ao repor seus pressupostos. Essa lgica ?expressa freqentemente com acentos necessitaristas e finalistas?, fornecendo a idia de que o ?sistema orgnico? do capitalismo parir, por seu prprio desenvolvimento, uma nova forma social, quando suas contradies internas levarem sua dissoluo. Autonomizao do capital em relao a seus pressupostos naturais, finalidade interna do modo de produo, classes como portadores do capital, capitalismo como grvido do comunismo: eis os traos gerais dessa primeira lgica21.

preciso reconhecer a existncia de formulaes, sobretudo quando Dardot e Laval tratam da luta de classes correspondente a essa lgica, que parecem estereotipar algumas teses de Marx. Marx sustenta que a luta de classes imanente ao desenvolvimento do sistema, no sentido de que a contradio entre capital e trabalho a base econmica que se exprime nos diferentes interesses das classes em luta. Mas essa tese levada ao extremo pelos autores. Para eles, a luta seria, de certo modo, absorvida pelo desenvolvimento autnomo do capital, e, mais ainda, seria considerada no apenas como ?aspecto necessrio e natural? do capitalismo, mas tambm como um ?processo regido por leis gerais desse mesmo desenvolvimento? (p. 563)22. Afetada assim de necessidade, determinada pelo movimento sistmico do capital e obedecendo a essas mesmas leis, a luta no poderia mesmo ter mais nada que ver com aquela ?lgica estratgica do enfrentamento? dos textos histrico-polticos, nos quais Marx percebia os desvios imprevistos da ao e a determinao recproca das classes no interior da luta23. No Capital, ao contrrio, a luta seria quase uma pea ? indispensvel, porm subordinada ? do movimento interno e necessrio do ?capitalismo conduzindo inevitavelmente ao comunismo? (p. 563). E isso se deveria, no fundo, ao fato de que, ?desde que ele est em condies de pr ele mesmo as condies de seu prprio desenvolvimento, o capital no nada de outro do que um puro processo de autoposio, no qual ele no tem mais que ver seno consigo mesmo? (p. 563). Isto , ao assumir as propriedades especulativas da autoposio de si, o capital subordinaria, a ttulo de momento seu, inclusive a luta das classes ? ela se torna cientfica, passa a obedecer s mesmas leis do capital, mas perde a chance de produzir algo inesperado, exterior dissoluo interna do modo de produo24.

Que figura especfica tem ento a luta de classes, como pea da engrenagem? Ela ter o sentido no de interromper o capital, mas de acelerar suas contradies internas ? portanto, de agir no mesmo sentido que ele: ?acelerando o desenvolvimento do capital, a luta econmica vai acentuar as contradies do capitalismo, aumentar a amplido das crises, e empurrar superao do capitalismo? (587). Assim, os autores mostram como as lutas trabalhistas acabam intervertendo em impulso pr-capital: limitando a acumulao por um lado (seja, por exemplo, limitando a jornada de trabalho), foram o capitalismo a se reinventar e acumular por outros modos (no exemplo dos autores, na intensificao da produtividade do trabalho graas ao maquinrio). Nessa linha, os autores terminaro identificando a luta de classes presente no Capital luta de alcance trade-unista. Vejamos alguns textos: ?nos escritos econmicos o proletariado no nunca mais do que uma forma do capital que no pode escapar de sua dependncia em relao ao capital. No que ele no lute, no que ele no possa melhorar as condies de trabalho e de vida, mas quando ele luta, ainda como um momento necessrio do desenvolvimento do capital, apenas o qual pode lanar as bases da emancipao do proletariado? (564). No Capital, o proletariado, mais do que classe posta, portadora do prprio capital (fora de trabalho). Ele luta, bem entendido, mas sua luta interna ao desenvolvimento prprio do capital. Para os autores, isso significa que sua luta uma luta para vender sua mo-de-obra por preos melhores no mercado. ?A luta dos operrios, tal como Marx visa no Capital, consistir numa luta econmica defensiva contra o aumento da taxa de explorao, ao qual tende sempre o capital. Essa forma de luta visa vender sob melhores condies a fora de trabalho, a assegurar de incio que o salrio no descer abaixo de seu valor, a obter aumentos de salrios e a diminuir o tempo de trabalho. (...) A luta trade-unista no tem por efeito e por objetivo recolocar diretamente em causa a prpria relao de produo. (...) Em suma, a luta sindical uma luta econmica pela vida do operrio, no pela morte do capital? (583-4). Nesse sentido, pensam os autores, a luta no Capital, que havia mesmo feito dos agentes portadores de sua contradio, s pode ser interna ao capital: isto , s se pode acelerar sua dissoluo, e s nessa medida visar o fim do capital.

Digamos que h, aqui, pelo menos duas questes simultaneamente em jogo. Por um lado, o tema a luta sob o capital ? os autores se apoiam principalmente no captulo sobre a jornada de trabalho ?, por outro, trata-se da questo da passagem do capitalismo ao comunismo, o que colocaria tambm o problema da apresentao marxista da histria, de que os autores entretanto no tratam nesse contexto. Em sua argumentao, enfatizam a continuidade na passagem do capitalismo ao comunismo (pensam no captulo da grande indstria, no qual o capitalismo d as bases para o comunismo ? entre elas, o nascimento do trabalhador global e a diminuio do tempo de trabalho necessrio), e a luta de classes como uma pea que, impulsionando o prprio capital, levaria acelerao de sua dissoluo imanente. H que se pensar nesses dois pontos.

No caso da luta (mas veremos que ela se imbrica com a continuidade histrica), os autores exemplificam atravs da Lei das fbricas que, impondo limites jornada de trabalho, teria por nico resultado forar o capital a se reinventar para intensificar a produtividade do tempo de trabalho, fazendo crescer a mais-valia relativa quando a absoluta foi restringida. ?O paradoxo que a luta de classes, que pe esse limite [o da jornada ?normal? de trabalho] tendncia de autovalorizao ilimitada, age no interesses mesmos do capital? (585)25. Reconheamos algo de iluso retrospectiva nessa anlise, que termina neutralizando toda contingncia do momento da luta em benefcio de uma necessidade post festum do capital. O sentido do argumento dos autores claro: fazer da luta de classes um momento do prprio capital, cujo sentido no mximo acelerar seu desenvolvimento para lev-lo sua dissoluo interna. E, assim, sua dissoluo interna levaria imediatamente ao comunismo, enfatizando a continuidade? o que parecem crer os autores.

Digamos que o argumento geral supe alguns passos no to bvios. Em primeiro lugar, perguntemos: qual o objeto do Capital? O prprio capital, e os autores reconhecem isso ao garantirem que o objetivo do livro ?descobrir as ?leis profundas? do sistema capitalista, e no analisar as oposies de classe l onde esto mais vivas? (p. 563). Mas identificam, em seguida, essas ?leis profundas? com ?leis naturais? (o que est, verdade, em certos textos de Marx: mas com qual alvo?). Isso posto, admitem que, a despeito do seu objeto no ser esse, a luta de classes no est ausente do livro (558, 563). Ao contrrio: ela est presente, porm sob a figura de uma pea da engrenagem, como j vimos. Ora, no seria preciso tirar mais consequncias do fato de que o objeto do livro o prprio capital? Isto , se o objeto do livro o capital, entende-se que as classes estejam l, porm no como protagonistas, e sim como portadores do capital, permanecendo a luta pressuposta salvo nos momentos em que s ela pode resolver antinomias insolveis pelo s desenvolvimento da mercadoria em capital (esse o sentido da luta pela jornada de trabalho). Mas disso se pode tirar uma concepo ?positiva? da luta de classes, como fazem Dardot e Laval, identificando a luta luta sindical? Ou se deve levar a srio o fato de que a luta est l, porm, no geral, pressuposta?26

No que toca passagem de capitalismo a comunismo, os autores insistem que o prprio capitalismo que leva internamente ao comunismo, e que a luta de classes apenas realizaria essa tendncia inscrita no prprio capital. No seria o caso de se deter mais longamente no problema da passagem ao comunismo? A ?lei interna? do desenvolvimento do capital leva, em verdade, sua dissoluo. Nesse sentido, a suposta teleologia da histria no marxismo poderia ser revista: em vez de um finalismo unvoco a percorrer toda a histria, haveria uma finalidade interna operando em cada modo de produo ? essa finalidade, porm, ?caminha? morte do modo (mesmo entre aspas, o verbo ruim por parecer reintroduzir, no nvel vocabular, a finalidade externa). Significa isso que cada modo engendra ou ?est grvido? do modo seguinte? Se assim fosse, tal tese corroboraria a idia uma teleologia na ?macro-histria?, alm de acentuar os traos necessitaristas dessa filosofia da histria. Entretanto, no isso o que ocorre com os modos pr-capitalistas, nem mesmo com a passagem ao capitalismo, e os autores mostram exatamente isso recorrendo a Ellen Wood. Porm, bastante verdade que o caso da transio do capitalismo ao comunismo coloca problemas parte. Em primeiro lugar, porque o capitalismo no apenas um modo de produo com sua finalidade interna, mas tambm o modo que totaliza todos os modos passados. nesse sentido que o ltimo modo da pr-histria. tambm verdade que s ele lana as bases materiais para o comunismo (a inclusa a formao do trabalhador global, a associao de trabalhadores e a reduo do tempo de trabalho necessrio). H textos, nesse sentido, que enfatizam a continuidade ? e no Capital h muitos deles. No se poderia, contudo, recorrer a outros textos para mostrar que h a tambm descontinuidade, isso , a morte de um modo de produo e s ento o vir-a-ser de outro modo? Mesmo o captulo XXIV do livro I, com efeito, ao se encerrar afirmando que ?soa a hora final da propriedade privada capitalista? e que ?os expropriadores sero expropriados?, no indica sobretudo a morte do modo, mais do que o nascimento de um modo novo? Uma tal leitura daria lugar descontinuidade, contingncia, e relativizaria a metfora da gravidez, segundo o qual comunismo seria parido pelo capitalismo ? metfora que privilegia, evidentemente, a finalidade e a necessidade da transio, quase a inscrevendo na lei natural do capitalismo. Numa palavra, a tese de que o capitalismo conteria todo o segredo do comunismo seria a nica palavra de Marx sobre o assunto?

Por fim, no seria preciso tambm dar mais lugar dialtica de contingncia e necessidade, que as crises introduzem no prprio movimento do capital? No caso da Lei das fbricas, dizer que ela apenas impulsionou o capital rumo ao maquinrio, no projetar retrospectivamente como superao necessria algo que dependeu de invenes contingentes? verdade que, aqui, narra-se do ponto de vista da totalidade e do ?sistema acabado?, e por isso a contingncia absorvida e transmutada em necessidade. Mas para uma exposio que pretende no se mover no plano etreo do absoluto, no importa tratar os momentos de contingncia como efetivamente contingentes, e no falsos dramas sempre j prometidos ao happy end da dialtica?27 Enfim, considerar a dialtica das modalidades no levaria a complexificar essa ?lgica do capital? para alm do necessitarismo da ?lei natural?, introduzindo momentos de contingncia no interior da determinao?

Salvo engano, essa descrio de teor necessitarista se impe a Dardot e Laval uma vez que procuram zelosamente repartir o que caberia ?lgica do capital? e o que caberia ?lgica estratgica?, sendo obrigados a lanar por debaixo do tapete aquilo que, em uma, invadiria a jurisdio da outra. Com essa descrio da luta sob o regime do capital, podem muito bem sustentar que ela j no tem mais nada que ver com a ?lgica estratgica? dos textos histrico-polticos (p. 563), nos quais se consideravam as situaes imprevisveis, as conjunturas particulares, os dramas prprios e sadas inesperadas da luta ela mesma. E ento, tudo aquilo que ?falta? lgica do capital aparecer no outro canto da obra, na ?lgica estratgica?. Voltemos agora a ela.

*

Como vimos, a ?lgica estratgica? estava apoiada numa concepo precisa de atividade: no a relao a si do capital, e sim a ?atividade prtica dos homens?, cujos traos gerais podem ser resumidos esquematicamente nos seguintes pontos: 1) trata-se de uma atividade condicionada por resultados da atividade de geraes anteriores, que as geraes atuais encontram j-a independentemente delas; 2) essa atividade transforma essas condies no mesmo movimento em que as assume (sem que isso signifique que tais condies se revelem, em segunda etapa, de antemo postas pelo mesmo sujeito que as retoma); 3) os sujeitos se produzem a si prprios ao transformarem as condies de que partem, transformando a si mesmos dessa sorte. provavelmente a partir desse ltimo ponto ? do fato de que ?os homens transformam a si prprios ao transformarem o mundo?, e de que isso configura uma dinmica irredutvel produo estritamente material do mundo, embora ocorrendo concomitantemente a ela ? que surge a ?lgica estratgica?. Por que falar numa dinmica ?irredutvel?? que a coincidncia, dizem os autores, entre ?transformao das circunstncias e autotransformao dos homens? no indica qualquer relao de causalidade, e isso ao ponto em que no se deve nem mesmo perguntar ?se so os homens que produzem as circunstncias ou o inverso? (p. 202). Essa idia ? que no fundo a de prxis ? invalidaria, alm do mais, a tese de ?um simples engendramento dos ?coveiros? do capitalismo pelo desenvolvimento econmico? (p. 202), dado que os homens se transformam a si mesmos (situamo-nos, pois, no avesso da lgica do capital). Ao contrrio, ela deveria ser aproximada de um processo de subjetivao como pensou Foucault, isto , um ?processo pelo qual os ?atores? engajados em relaes conflituosas se transformam na exata medida do desenrolar da luta, ao mesmo tempo que transformam a situao e criam as condies de sua eventual vitria? (p. 202). A referncia a Foucault importa, pois ela que dar conta das teses mais fortes que Dardot e Laval imputaro sua ?lgica estratgica?.

O ncleo que d nome a essa lgica tem a ver sobretudo com o modo pelo qual a luta de classes a se insere. At certo ponto, Dardot e Laval parecem apenas salientar um aspecto j contido na ?atividade prtica dos homens?: trata-se de ?uma lgica da transformao do ator pela ao de transformao que ele exerce sobre o dado condicionante, portanto uma lgica de produo de um sujeito pela sua prpria ao? (p. 209). At aqui, textos de Marx como as Teses sobre Feuerbach no dizem outra coisa. Vimos tambm como a concepo da ?atividade prtica? j antecipava tais teses. De modo que, pelo menos at aqui, a ?lgica estratgica? parece suficientemente calcada na ?atividade prtica dos homens?. por isso, tambm, que, com a noo de prxis cobrindo tanto o aspecto objetivo quanto o subjetivo, Marx pensaria ?o processo revolucionrio como um processo de autoconstituio e de autotransformao histrica da classe operria, que no pode se confundir com o processo de desenvolvimento do capital? (p. 201). Transformando tanto as condies materiais quanto os sujeitos que as transformam, ?a prxis autoformao do homem na medida em que ela produz seu prprio sujeito, este ltimo no preexistindo s aes mas se constituindo, ao contrrio, na e pelas aes? (p. 210). Se essas formulaes no levantam at aqui maiores objees (a idia de que o sujeito se constitui ou sofre mudana de essncia no processo de reflexo no estranha dialtica), toda a questo saber como se compreende essa ?autoformao? dos sujeitos e, principalmente, em que sentido o sujeito ?no preexiste s aes?.

H passagens em que a tese da ?lgica estratgica? se torna bem mais forte. E sobretudo aqui que ela se tornar inconcilivel com a lgica do capital. Os autores no diro apenas que as classes e os homens se constituem ao produzir o mundo ? o que fazer o trabalho especificar historicamente sua essncia ?; eles diro que as classes se constituem umas s outras no interior da prpria luta. Citemos: ?mais do que colocar exclusivamente o acento sobre a gnese econmica das classes para explicar a luta, ocorreu a Marx de fazer da luta ela mesma o movimento de engendramento das classes, de pensar a luta como um processo de constituio dos atores da luta? (p. 218)28. Ora, uma coisa dizer que os homens se constituem no seu fazer, se transformam ao transformarem as condies materiais de sua existncia, de uma gerao a outra; outra coisa, e bem diferente, afirmar que a luta constitui as classes em luta, e que o enfrentamento que produz os atores polticos. Para os autores, ser na luta e na crise revolucionria que o proletariado se tornar sujeito revolucionrio (p. 225). Mas isso (e aqui a novidade) no se entende como a clssica passagem da classe em si classe para si, da classe latente classe explcita, e sim como a prpria produo dos atores no interior da guerra de classes: ?as classes se constituem a elas mesmas no enfrentamento que as ope, longe de preexistirem a este como posies dadas de antemo em relaes de produo? (p. 14).

A olhos vistos, os autores inspiram-se largamente nas noes foucauldianas de subjetivao e estratgia. No que toca subjetivao, partem da interpretao que Foucault sugeriu incidentalmente da clebre a frase de Marx, ?o homem produz o homem?. Ela indicaria que essa produo no se d no mesmo plano que a produo material ou econmica (p. 212). Isso porque, ?no curso de sua histria, os homens jamais deixaram de construir a si mesmos, isto , de deslocar continuamente sua subjetividade, constituir-se em uma srie infinita e mltipla de subjetividades diferentes que no tero fim e no nos colocaro jamais diante de algo que seria o homem? (Foucault, Dits et crits, apud Dardot e Laval, p. 212). O homem se constitui a si mesmo (no se trata, pois, de uma substncia fixa), mas isso sob formas historicamente distintas e dependentes do conjunto de relaes (prticas, dispositivos, formas de poder) a que a cada vez se submete29. Essa tese foucauldiana clssica, que os autores assumem para elucidar sua ?lgica estratgica?, no deixar de cobrar seu preo no eplogo do livro ? alis, preo pago de boa vontade pelos autores. Afinal, os autores tero de reconhecer que, sem a idia de um Homem novo ? recusada pelo nominalismo foucauldiano em nome da ?infinita e mltipla? srie de subjetivaes ?, cuja constituio se daria na passagem da pr-histria Histria, fica igualmente vedada a pauta da ?emancipao do homem?, que ter de ser trocada pela bandeira mais modesta das emancipaes, no plural. Ao fim do capitalismo, teremos uma nova subjetivao ? mas apenas isso.

Seja como for, essa concepo da srie infinita de subjetivaes ilumina, por sua vez, a tese da constituio das classes no interior das lutas e a importncia da noo de estratgia de poder30. que, como no h uma noo de essncia anterior ou independente das relaes, ser a prpria luta o ?jogo? no qual as identidades dos atores se constituem. Assim, mais que compreensvel que as classes no sejam dadas, pr-delimitadas no nvel da economia conforme aos interesses objetivos, oriundos da distribuio da propriedade (na terminologia clssica, as classes ?em si?): suas identidades se produzem apenas no embate entre si, na relao de luta. Isso se torna bastante claro no comentrio que os autores fazem, seguindo mais uma vez Foucault, da noo de estratgia31. No sentido etimolgico, a palavra pareceria indicar a existncia de um exrcito em face de outro, para o qual se traa um plano ou estratgia. Porm, Foucault dir que existem trs sentidos mais precisos de estratgia: primeiro, a racionalidade de meios para fins; segundo, o clculo num jogo, que adivinha os passos do adversrio para melhor combat-lo; terceiro, os meios, numa guerra, para obter a vitria. Contudo, e esse o passo importante, essas definies deixam na sombra a ?gnese do sujeito da estratgia? ? e com razo, pois, para Foucault, ele ?no pode ser pressuposto ao enfrentamento? (p. 226). Dito de outro modo, os atores da luta no preexistem luta (do mesmo modo que as peas de um tabuleiro no preexistem s regras do jogo), de modo que a relao de enfrentamento, de conflito, que os identifica. ?No h plos de poder fora do enfrentamento?, as classes no so algo fora da luta de classes, ?a estratgia primeira em relao ao estrategista? (p. 226). Note-se que a tese da subjetivao (e seu corolrio anti-?fim da histria? e anti-?emancipao do homem?) e da estratgia de poder se acompanham intimamente: sem o antropologismo de uma essncia humana substancial, externa s relaes, restam apenas as diferentes subjetivaes que ocorrem por meio de relaes e prticas (modos de vida? jogos?), atravs das quais, de quebra, as subjetividades se especificam e se historicizam. No caso das classes, isso significa que s por meio do ?enfrentamento estratgico? que os combatentes se identificam.

Comemore-se o esprito antidogmtico de se recusar a absoro de toda especificidade da luta na dinmica econmica. Mas preciso examinar essa recusa. Dardot e Laval querem que essa lgica estratgica seja a ?grade de inteligibilidade? dos textos histrico-polticos de Marx, o que tem sua validade como hiptese de leitura. Mas querem tambm que essa lgica esteja fundada na ?atividade prtica dos homens?, tal como descreveram. Ora, isso coloca o problema de saber se essa lgica perfeitamente compatvel com os textos de Marx, para alm dos textos polticos. Evidentemente, ela no se harmoniza com a ?lgica do sistema acabado?, mas no s isso o que est em questo. Perguntemos antes: o que devm daquilo que se sabe de Marx quando se o ajusta para defender as teses foucaultianas da subjetivao e da estratgia?

Notemos, de incio, uma semelhana epidrmica. Em Foucault como na dialtica, as essncias no so dadas, mas vm-a-ser por meio de relaes, num caso, processos de constituio, noutro caso. No caso de Foucault, isso leva a no hipostasiar as subjetividades fora das relaes e a falar em anterioridade da relao sobre o relacionado. Nesse sentido que as classes no preexistem ao conflito (mas tambm no existem fora ou depois dele). Em Marx, seria preciso dizer no que os termos ?inexistem? antes do processo, e sim que esto pressupostos ? o que muito diferente. Dizer que, antes da luta, as classes esto a, porm implcitas ou em si ? e, correlativamente, que a luta significa uma passagem ao explcito ou ao para si ? no equivale a dizer que as classes se constituem uma outra na luta. Mas dizer isso ainda muito pouco. H, no ncleo do problema, um modo diferente de se pensar a relao. Para Foucault, ela anterior aos plos relacionados, e estes s se especificam no interior dessas relaes, cessando de ser uma vez suspensas a relao; em dialtica, o plo no apenas entra em relao, mas interioriza a prpria relao, suprime sua unilateralidade e d surgimento a uma figura superior. Evidentemente, j no se entende a relao como ?oposio? de foras (como no pensar no texto kantiano da grandeza negativa?), universo ao qual Foucault se prende, mas como contradio, o que implica a noo hegeliana de negao determinada e uma sntese operando no real. De certa forma, foi o que notou Balibar, num texto ainda til de citar por extenso:

o que marca uma divergncia irredutvel [entre Marx e Foucault] a idia mesma que Foucault prope da estrutura do conflito social. A divergncia (...) diz respeito oposio entre uma lgica da relao de foras, da qual a ?contradio? no quando muito mais do que uma configurao particular, e uma lgica da contradio, da qual a ?relao de foras? apenas o momento estratgico. (...) Foucault as entende puramente como exterioridade, o que quer dizer ao mesmo tempo que as ?visadas? que se enfrentam num conflito estratgico se destroem, se neutralizam, se reforam mutuamente ou se modificam, mas no formam qualquer unidade ou individualidade superior. Ao contrrio, para Marx, o desenvolvimento de um conflito tem por condio a interiorizao da relao ela mesma, de sorte que os termos antagonistas se tornam funes ou portadores dessa relao32 (p. 70).

Descontada a idia (estruturalista) dos antagonistas como ?funo? da relao, salta aos olhos as implicaes nominalistas para a concepo foucautiana de relao. Numa palavra, no h o processo pelo qual um polo interioriza a relao e vem a ser como universal concreto, sntese das determinaes.

Note-se que o argumento de Dardot e Laval consequente. Procuraram, inicialmente, ancorar essa lgica na ?atividade prtica dos homens?. Na sua interpretao, essa atividade, por lidar com pressuposies efetivas no interiorizveis pelo sujeito, no dava azo relao a si, isto , no poderia ser lida maneira da reflexo hegeliana. No fato de que havia, ali, uma autotransformao do homem concomitante das coisas, pretenderam ver nisso os traos de uma ?subjetivao? em curso, isto , a idia de que as subjetividades se produzem exclusivamente por meio de suas prticas, jamais fora delas. Da vinha, como vimos, a noo de estratgia de poder, como campo de relaes no qual as classes se constituem. inegvel a impresso de que, nesses passos, o essencial da dialtica se perdeu. Mas por que a dialtica valeria para essa ?lgica estratgica?? No estaria ela restrita ao universo em que um mesmo sujeito se reflexiona, isto , ao universo da autoposio do capital? Passo arriscado: a dialtica valeria apenas para um conjunto de textos de Marx. Ser ento um ?mtodo??

Seja como for, Dardot e Laval assumem coerentemente as implicaes de sua tese. Sem negao, no h interiorizao da relao e salto para uma figura superior; em termos marxistas, nenhum plo tem o privilgio de encarnar a supresso da prpria relao de antagonismo. Na luta real, nenhum polo, nenhuma classe encarna a promessa da emancipao do homem, dissolvido como foi em diversas ?subjetivaes?. Isto , o proletariado, contrariamente ao que diziam clebres textos de Marx, no o sujeito universal da histria33. Igualmente, em filosofia da histria, some a distino pr-histria e Histria: o que vir ?mais uma? subjetivao, jamais a constituio do Homem (e tambm das categorias riqueza, propriedade, igualdade, etc?). No que respeita os fins, a idia de emancipao d lugar s mltiplas emancipaes. De passagem, observe-se que os autores no tm em mira aqui apenas a vulgata marxista. Pretendem tambm afastar-se da Escola de Frankfurt, supostamente vtima de uma esperana idealista da ?des-alienao? completa do homem (ao que parece, esto seguindo passagens mal-humoradas de Foucault sobre o assunto), rejeitando desse modo at a sada (rigorosamente dialtica) de se conservar a idia de reconciliao como ponto de fuga (pressuposto) da crtica do presente.

*

Que pensar da tese das duas lgicas? No segredo que essa tese lhes sussurrada por Foucault: os autores confessam que a leitura foucauldiana dos textos polticos de Marx ?esclarece singularmente a disjuno no prprio Marx entre a anlise do desenvolvimento da dominao capitalista e a ateno aguda s formas da luta, entre a perspectiva sistmica e a perspectiva estratgica, e mais, geralmente, entre a lgica do capital e a lgica da guerra das classes? (p. 225). Como vimos, essas duas perspectivas do lugar a dois Marx (ainda que os autores procurem garantir que Marx a prpria tenso entre elas). Os autores falam ento em dilaceramento, paradoxo, heterogeneidade. Dizem tambm, apoiando-se no mesmo Foucault, que se trataria de duas ?grades de inteligibilidade?. Por isso, alis, sendo irreconciliveis, podem coexistir nos mesmos livros, embora em planos distintos. Assim, a Ideologia alem lida sob a grade da atividade prtica, dando a ver o carter condicionante-condicionado da atividade humana que implica, ademais, formas de subjetivao especficas; mas os autores parecem deixar de lado, talvez por se prender grade do ?sistema acabado?, o conceito de modo de produo. Para a tese dos autores, coloc-lo analiticamente sob parnteses vem a calhar. Mas isso significa tambm dizer que os conceitos de ?modo de produo? e ?prxis? pertencem a universos distintos de significao. Essa distino de registros, contudo, estaria no prprio Marx? Ou ser que a Ideologia alem tem um registro prprio, no qual esses dois conceitos no precisam ser lidos como pertencentes a planos distintos e, ao contrrio, tm uma forma de se complementar?

Tome-se, por exemplo, a leitura que os autores fazem do Capital. Ali, a grade de leitura a do ?sistema acabado?. Eles do conta dos meandros econmicos e lgicos que estruturam o livro, expondo cuidadosamente a dialtica de mercadoria e capital. Porm, nesse registro, que acontece com a luta? Como vimos, ela se torna a realizao, sem mais considerandos, de tendncias imanentes ao prprio sistema, que levaro sua autoimploso. Os autores no levam em conta, a, por exemplo, a dialtica da contingncia e da necessidade que se arma nos momentos de crise ? mas isso porque no lhes interessa sublinhar que, no Capital, h momentos em que a luta posta (e ela deve ser posta) e a contingncia ?entra? na necessidade. Assim, a luta de classes apresentada pelos autores como correspondente ?lgica do sistema? tende por vezes estereotipia (por exemplo, em assimil-la aos movimentos trade-unistas). No ser, talvez, que essa estereotipia se impe devido justamente grade de leitura, que se interessa mais em repartir o que cabe a cada lgica do que em mostrar em que momentos, como e por que uma invade dialeticamente a outra?

A impresso que o livro, bem informado e com conhecimento de causa a respeito da dialtica, , no fundo, relativamente pouco dialtico. Ou, dizendo mais precisamente: ele dialtico no objeto ? mostra como a reflexo objetiva arma todo o discurso de Marx, como a dialtica da aparncia e da essncia estrutura a exposio do Capital e assim por diante ?, mas ele prprio no dialtico. A tese nuclear do livro ? o ?paradoxo? e o ?dilaceramento? das duas lgicas, entendidas ademais por vezes como ?grades de inteligibilidade?, o que as aproxima do universo de Foucault ? j no indicava isso? Contudo, isso no fundo pouco importa ? a no ser que, talvez por dogmatismo, passemos a exigir fidelidade religiosa ao partido da dialtica. Antes, talvez se deva perguntar outra coisa: o que se torna Marx lido sem dialtica? Ou, melhor ainda: j que os autores vem nesse Marx dilacerado em duas lgicas o teor de ?atualidade? da sua obra, de onde vem essa atualidade e, correlativamente, a inatualidade do velho Marx ?dialtico??

Aparentemente, essa inatualidade viria da inverossimilhana da ligao de teoria e prtica (mas ela j no antiga?): de um lado, o atolamento da lgica do capital em passar ao comunismo, de outro, a esperana em lutas que no dependam de suas crises internas para surgir. Dessa forma, seria a tentativa mesma de neutralizar essa tenso ? procurando pontes entre teoria e prtica, como fez o prprio Marx da ?lgica do capital? ? que se condenaria inatualidade.

Por sua idia de atualidade, Dardot e Laval so anticapitalistas no-marxistas. Recusam, nesta tradio, a ?soluo imaginria? do comunismo, em torno da qual ela teria orbitado, e que teria deixado na sombra a percepo do dilaceramento ? terico e prtico ? das duas lgicas. A se comemorar, ento, o fim da crena de que a superao do capitalismo estaria inscrita, de um jeito ou de outro, na ordem das coisas. Nisso, situam-se, a seu modo, na tradio da crtica do progresso. Por um lado, os terremotos econmicos do capital levam por si ss a qualquer lugar, importando ento retomar questes especificamente polticas, que teriam permanecido por vezes soterradas sob o economicismo da vulgata marxista; por outro, admitem que a apresentao de Marx do capital como um movimento automtico continua atual, porm, dada a experincia do sculo XX, mostra-se tambm relativamente capaz de neutralizar sua natureza autodestrutiva ? ao custo do que for, claro. Que o capital viva de suas crises, isso no significa que no seja capaz de adiar a derradeira delas, recriando-se quase sempre em patamares mais desiguais e violentos. Mas tampouco significa ? e esse o aspecto propriamente poltico da desiluso imposta pelo sculo XX (mas seria bom observar que no o nico) ? que v encontrar um sujeito histrico capaz e empiricamente interessado em levar a cabo sua contradio inerente, completando o penoso parto de uma nova forma social. ?Bastaria aguardar o caos, esperando que a humanidade seja obrigada, na urgncia, a inventar uma outra coisa? A ?soluo? tem a ingenuidade de pressupor que, diante da catstrofe, a razo no hesitar em escolher. A ver.?34. O otimismo marxista supunha existir entre lgica do capital e lgica da luta uma espcie de complementaridade, se no homogeneidade, cuja validade de direito nem sempre coadunou com os fatos e que, no fundo, se deve colocar na conta de uma noo de progresso pouco questionada ? a idia, entre outras, de que o capitalismo levaria internamente ao comunismo. porque a crena marxista morreu deixando bem vivo o capital que resta a pergunta, bvia porque crucial: como sair dele? Note-se que a questo s surge, de modo relevante, quando no mais se enxerga a ponte entre as duas lgicas, e quando a repisada metfora da gravidez, subproduto dessa ponte, segundo a qual o comunismo nascer do ventre do capitalismo, tornou-se virtualmente inverossmil.

Esse dilaceramento ilustrado, talvez de modo at involuntrio, pelo eplogo do livro, que tem algo de construo literria. A dada altura, os autores comeam a narrar o estado atual da dominao capitalista, mostrando como ela invade todas as esferas da vida pblica e privada, confundindo tempo de trabalho e no-trabalho, mercado e no-mercado, produzindo subjetividades que no apenas consentem em serem dominadas, mas gozam em produzir mais e mais, colocando em marcha um movimento autnomo de valorizao que lhes escapa. Em termos de redao, os pargrafos entram numa progresso vertiginosa, at desembocarem numa confisso de pessimismo da qual nem mesmo a Escola de Frankfurt teria suspeitado (a lembrana deles). E ento, de repente, o texto muda de tom, garante que nada disso inelutvel, que se trata de uma construo poltica, e que h o que fazer. Para o leitor, um novo autor (uma nova lgica?) escrevendo, e de humor, digamos, mais otimista. Em suas mos, o captulo terminar convocando seu pblico em tom grandioso: que fazer? ?Lutar?. Dada a descrio anterior, nada de mais artificial. H algum desequilbrio no texto, mas que acaba evidenciando o desespero da soluo encontrada: quando o crculo do capital parece se fechar indefinidamente, as palavras de ordem que proclamam haver tudo a se fazer se tornam, primeira vista, meramente verbais. At porque, quem vai ouvi-las, dado o que os autores mostraram acerca das novas ?subjetivaes?? De certo modo, trunfo dos autores: mostraram literariamente o divrcio das duas lgicas, a saber, a impossibilidade de ligar diagnstico do presente e projeto de luta.

No deixa de ser notvel que, no texto sobre neoliberalismo, era exatamente nesse ponto que os autores convocavam a idia marxiana de atividade, como se coubesse a ela desvendar o ?ncleo poltico? ? portanto, por onde pode se dar interveno ? daquela racionalidade liberal, posta em marcha pelas prticas humanas mas que, em fim de expediente, autonomizava-se com relao a elas e passava a domin-las sem mais. Curiosamente, agora Foucault que chamado a socorrer a lgica do capital, que parece se fechar sobre si mesma. Ali Marx, aqui Foucault, talvez isso indique que o problema, por ser historicamente real, continua de p.

Marx, prnom: Karl no um livro que se deixe comentar de uma vez s. Nas suas oitocentas pginas, o livro enfrenta uma gama de problemas que exigiria mais de um resenhista para deslindar. Vale observar a qualidade notvel de captulos de que no foi possvel falar aqui, como aquele sobre o mtodo da crtica da economia poltica, interpretado de modo convincente e original. Ainda de se elogiar a seriedade do livro, que no omite citaes e argumentos que complicariam sua tese, deixando ao leitor pelo menos alguns instrumentos para julg-la. Arriscaria, inclusive, a hiptese de que se trata de um livro de investigao, em que os autores esto procurando, a um s tempo, um ponto de vista, capaz de armar um agudo diagnstico do presente, e um vislumbre de por onde se sai dele. Ativemo-nos, aqui, quilo que nos pareceu ser a espinha dorsal do livro. No pretendemos que, sem ela, desmonte-se o esqueleto; quisemos, apenas, nomear os dois ps sob os quais ele se firma.

Compartilhado





























fevereiro #

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1Agradeo a leitura e comentrios de Marilena Chaui, Monica Stival e Ruy Fausto. Em especial, Monica fez observaes quanto a Foucault e Marilena fez sugestes de cunho histrico. A responsabilidade, naturalmente, toda minha.

2Dardot, P. e Laval, C. La nouvelle raison du monde. Essai sur la socit noliberale, Paris, La Dcouverte, 2010 ; Dardot, P. e Laval, C. ?Noliberalisme et subjectivation capitaliste?, in: revue Cits, no. 41, Paris, PUF, 2010, pp. 35-50. At o momento da redao desta da resenha, no tive acesso ao livro e por isso acompanho, no que segue, apenas o artigo.

3Dardot, P. e Laval, C. ?Noliberalisme et...?, op.cit., p. 5. Cito a verso eletrnica, disponvel em http://questionmarx.typepad.fr.

4Dardot, P. e Laval, C. ?Noliberalisme et...?, op.cit., p. 10.

5Dardot, P. e Laval, C. ?Noliberalisme et...?, op.cit., p. 10. E tambm: ?vigiar melhor, quer dizer, mais eficazmente, no consiste em aumentar o comando autoritrio e adensar as malhas da regra burocrtica. Consiste, antes, em colocar em funcionamento um dispositivo pelo qual o indivduo se ver obrigado a se vigiar constantemente a si prprio, autocontrolar-se, e, mais ainda, sentir-se obrigado a ultrapassar sem cessar os resultados calculveis para no sofrer as sanes ligadas falta de eficcia e para se beneficiar, ao contrrio, das recompensas atribudas performance? (idem, p. 11).

6Dardot, P. e Laval, C. ?Noliberalisme et...?, op.cit., p. 7.

7?A imposio dessa forma de concorrncia no tem nada de natural. Ela no o resultado de processos espontneos. Ela no , tampouco, o efeito de uma espcie de ?canibalizao? inerente dinmica do capitalismo. Ela resulta de uma construo poltica? (idem, p. 6).

8Idem, p.14.

9Balibar, E. "Foucault et Marx : lenjeu du nominalisme", in: vrios autores, Michel Foucault philosophe, p. 69, grifos meus.

10A anlise da produo em Marx no teria a ?consistncia de uma prtica?? J h aqui toda uma interpretao de Marx que, no por acaso, ir reaparecer no ltimo livro de Dardot e Laval, como veremos.

11Dardot, P. e Laval, C. Marx, prnom: Karl, Paris, Gallimard, 2012.

12?Em suas maiores anlises histricas [Marx] elabora uma concepo ?estratgica? da luta de classes, para a qual o essencial no a sociologia das classes, mas a natureza do conflito como relao entre elas. Aparece ento que as classes se constituem elas mesmas no enfrentamento que as ope, longe de preexistirem a este como posies dadas de antemo nas relaes de produo. Deve-se sempre partir das relaes de fora, isto , considerar os atores como sempre j tomados em relaes e renunciar a conferir a uma classe um privilgio ontolgico que a situaria num ?fora? radical.? (p. 14). Note-se desde j a presena de Foucault, tanto na idia de uma relao ?anterior? ao relacionado (antes da qual sequer h identidade), quanto na noo de estratgia. No fundo, essa a fonte da interpretao da ?lgica estratgica?, segundo a qual as classes se constituem apenas no conflito. Voltaremos a isso frente.
Note-se, alm disso, que, se a bifurcao de lgicas se exprime em duas sries de textos aparentemente incompatveis (por um lado, os textos lgico-econmicos como o Capital, por outro, os textos histrico-polticos, sobretudo a trade de 18 Brumrio, Luta de classes na Frana e Guerra civil na Frana), os autores advertem que essas duas lgicas estariam presentes em todos os textos, ora uma ora outra sendo a dominante.

13Para os autores, interessa voltar no soluo comunista, mas precisamente tenso problemtica entre as duas lgicas. Fique claro que no estamos diante, apenas por isso, de autores conservadores. Muito pelo contrrio, para eles a liberao, por assim dizer, desse ?horizonte ideal? e de sua condio de possibilidade ? a idia de que a luta de classes tem um papel determinado, circunscrito pela crtica da economia poltica, a cumprir ?, permitiria, hoje, uma multiplicao das lutas, a se darem em diversas frentes e no privilegiadamente numa ou noutra. Da o interesse em reavivar a suposta ?atualidade? de Marx, a saber, a irredutibilidade das duas lgicas.

14Dardot e Laval entendem as ?pressuposies efetivas?, pertencentes ao universo da ?atividade prtica dos homens?, como, diferena das pressuposies reflexivas, no sendo interiorizadas e repostas pela atividade ? seja a prtica, seja a do pensamento.

15 preciso notar que a explicao dada pelos autores acerca da aclimatao ?materialista? da lgica dialtica, no geral, de cunho histrico e gentico (o que tem, evidentemente, seus limites). Isto , apresentam historicamente ? por cartas, textos, argumentos filolgicos ? como e quando Marx foi levado leitura da Lgica da Essncia, como ele reaclimatou os operadores da posio e da pressuposio de modo a liber-los do bero idealista. Contudo, quase no chegam a examinar a validade de direito dessa nova dialtica marxista. Penso que, por um lado, esse o propsito mesmo do livro: de caso pensado, os autores se propem desmitificar Marx voltando s suas fontes, confessadas ou no, de modo a desfazer a lenda do ?gnio que teria tudo inventado?. A ttulo de mais exemplos, encontraro a origem do conceito de mais-valia no ricardiano de esquerda William Thompson (no apenas o nome, mas tambm o conceito), a origem da luta de classes como ?lei? da histria nos historiadores liberais franceses (sobretudo Guizot e Augustin Thierry), e o contedo do comunismo nos socialistas utpicos. Por outro lado, o comentrio gentico parece no dar, em alguns casos, relevo suficiente ao exame de direito das solues propostas por Marx. o que acontece, aparentemente, com a idia de pressuposio e posio. Por rigoroso e informado que seja o comentrio, os autores no parecem interessados em levar s ltimas consequncias a lgica da reflexo (no do maior relevo, diga-se de passagem, negao dialtica). De certo modo, eles compreendem seu alcance e mostram como ela funciona no objeto, isto , como o argumento marxista opera com ela; mas parecem circunscrever essa lgica apenas aos textos, sem examinar sua validade enquanto lgica. Creio que est a uma diferena em relao bibliografia brasileira (penso em Ruy Fausto e J.-A. Giannotti), das primeiras a retomar a centralidade da Lgica para a leitura de Marx, alis em parte com a inteno de desautorizar a leitura epistemologizante de Althusser. No todo do livro de Dardot e Laval, ocorre uma espcie de sub-aproveitamento dessa lgica dialtica, que est como que no objeto do livro, mas no no livro. Confessemos que a tese das ?duas lgicas? bem pouco dialtica, e mesmo a idia de uma ?alternativa? entre elas (os autores falam tambm em ?dilaceramento?) pode soar como recada no entendimento. Ora, claro que tudo isso no uma ?falha de leitura? dos autores, mas se deve, penso eu, ao ponto de vista foucauldiano que assumem: como comentadores de texto, elucidam competentemente o funcionamento da dialtica em Marx, como intrpretes, interessa-lhes a genealogia dos conceitos e enfatizar o divrcio entre lgica do capital e lgica da luta.

16Marx, K. Grundrisse, So Paulo, Boitempo, 2011, p. 55. Cf. tb. Dardot e Laval, op. cit., pp. 330-1.

17Pelo menos, o que alguns textos sugerem: ?essa anlise [a da luta de classes em termos de estratgia] apia-se ela mesma em uma lgica da atividade humana como atividade prtica condicionada? (Dardot e Laval, op. cit., p. 671). Essa fundao deve ser entendida em sentido bastante lato. Por um lado, trata-se de dizer que essa atividade, por ser tambm uma auto-constituio dos homens que produzem o mundo, abre espao para uma dinmica irredutvel ao mero avano das foras produtivas, que contempla a histria, a tradio, a cultura das classes e das lutas, fatores no-econmicos que entram na lgica da ao. Por outro, v-se nessa lgica da ao as mesmas caractersticas encontradas na atividade prtica: ?[Marx] no esquece jamais que a luta pe, por sua vez, ?pressuposies? que so seus prprios resultados, dando assim luta de classes sua dinmica prpria? (idem, p. 249).

18A atividade prtica ser assim uma ?pressuposio efetiva? do pensar. As pressuposies efetivas se impem ao pensamento do exterior, ainda que este no as reconhea. Est nisso, segundo os autores, o fundo positivo da crtica da ideologia em 1845, que consiste em desarmar querelas filosficas reconduzindo-as a relaes efetivas.

19Vale a pena citar uma longa passagem dos autores. Isso, eles dizem, ?s possvel ao preo de uma desarticulao do processo de conjunto da reflexo: implica, com efeito, cortar o ser-pressuposto do ?ato de por anterior a si mesmo? da imediatidade primeira, para lig-lo atividade das geraes anteriores(...). No se trata mais, como na ?reflexo exterior? hegeliana, do ?esquecimento de si? do ato de pressupor, mas do modo pelo qual aquilo que um resultado da atividade prtica de indivduos de uma gerao aparece aos indivduos da gerao seguinte como um dado imediato, na medida em que eles tm de partir dele em sua prpria atividade. (?). diferena da reflexo especulativa, a atividade prtica dos indivduos no ponente e pressuponente ao mesmo tempo, ela antes condicionada e condicionante ao mesmo tempo, o que no d no mesmo. Pois ?ser pressuponente? significa propriamente, em regime especulativo, fazer-se condicionar por um outro que si que ele mesmo ps. O que no tem nenhum sentido aqui: a atividade prtica no pe anterior a si mesma condies para melhor retornar em si mesma e produzir-se assim como sujeito da histria, ela de partida condicionada por resultados que ela mesma no ?ps?, pela simples razo de que foram ?postos? independentemente dela e anteriormente a ela pela atividade de geraes antigas? (idem, p.191).

20Esse passo ? o de descobrir na atividade objetiva dos homens esse duplo lado condicionado-condicionante, isto , o fato de que ela parte de circunstncias encontradas j-a (resultados de atividade de geraes anteriores), e que ela simultaneamente transforma ao retom-las ? teria permitido, de quebra, crtica da ideologia alem encontrar nesse duplo lado da atividade prtica o ?fato emprico? do qual o jovem hegelianismo tiraria, abstraindo a cada vez um de seus lados, sua oposio central, a saber, a substncia dos ?espinosistas? versus a conscincia de si dos ?fichteanos?. Por esquemtico que seja, no deixa de seguir o programa anunciado por Marx de resolver os impasses filosficos dissolvendo-os nas relaes reais, nas quais se encontra pois uma espcie de reflexo prtica, cortada da autopressuposio.

21Para as duas lgicas, cf. especialmente idem, pp. 11, 218, 219. Essa lgica,continuam os autores, "interpreta os fenmenos e os momentos histricos em funo de uma necessidade que lhes preexiste, e na qual eles vm se acomodar mais ou menos harmoniosamente. O lugar, o papel, as formas, os atores da luta de classes so reportados sucesso dos modos de produo, anlise do desenvolvimento capitalista? (idem, p. 219). Algumas formulaes dos autores so complicadas: a necessidade ?preexiste? aos fenmenos? Pode-se ento falar de finalidade interna? E se se trata de finalidade externa, no se est reeditando os lugares comuns sobre a teleologia histrica como a perseguio de uma meta exgena?

22?Como, com efeito, se poderia enunciar proposies cientficas sobre o vir-a-ser inelutvel do sistema de produo se se deixasse algum lugar possibilidade de uma mudana, pela ao humana, dessa mesma ?lei de desenvolvimento?, a menos que se considere que essa ao seja apenas um elemento previsvel do movimento geral, e portanto submetida ela tambm ?lei de desenvolvimento?, o que significa precisamente negar a alterao imprevisvel do curso das coisas pela atividade histrica dos homens?? (p. 558).

23As formulaes de Dardot e Laval so fortes: haveria em Marx uma ?hiptese forte segundo a qual as leis do capitalismo podem dar conta do processo que conduz ao comunismo maneira de um ?processo natural?. O que leva, em suma, a fazer como se esse desenvolvimento do capitalismo no estivesse ele mesmo suspenso ao antagonismo de classe, como se esse antagonismo no pudesse conduzi-lo a direes imprevistas e modificar as regularidades observadas no curso de seu desenrolar, em funo das relaes de fora e das ?colises? entre classes?. (Dardot e Laval, idem, p. 563, cf. tb., pp. 558-9). Os autores aproximam, assim, lgica do capital a uma lei natural (o que est no texto de Marx, mas seria preciso ver a cada caso em que contexto), enfatizam a determinao necessria da luta pela economia, tendem a neutralizar os momentos de contingncia. Sem considerar a dialtica de contingncia e necessidade que h no prprio movimento do capital, e que abre espao (circunscrito, verdade) para a contingncia da luta, os autores parecem unilateralizar um aspecto da relao entre capital e luta, para poderem repartir melhor o que cabe a cada uma das suas ?duas lgicas?. Aparentemente, a tese das duas lgicas irredutveis depende tambm de uma certa estereotipia da lgica do capital.

24Os prprios autores notam alguma semelhana de diagnstico, no que toca o divrcio dos textos econmicos e dos textos polticos, com a posio de Castoriadis, segundo o qual, dizem os autores, a obra econmica perderia a ?historicidade das lutas entre as classes, isto , sua capacidade de engendrar por si mesmas efeitos realmente novos e imprevistos? (Dardot e Laval, 558). Isso derivaria, diz agora o prprio Castoriadis, ?da premissa fundamental: que, na economia o capitalista, os homens, proletrios e capitalistas, (...) so submetidos ao de leis econmicas que no diferem em nada das leis naturais? (Castoriadis, Linstitution imaginaire de la socit, apud Dardot e Laval, 559). Da a pergunta feita por Dardot e Laval, aparentemente na mesma linha de Castoriadis (e os autores tambm poderiam ter lembrado do Lefort das ?duas vises marxistas da histria?): ?o projeto mesmo de apreender uma ?lei do desenvolvimento do capitalismo?, independentemente da histria das lutas polticas e sociais no eminentemente problemtica, a menos que essa histria da guerra social esteja escrita de antemo porque ela tambm submetida a uma lei?? (Dardot e Laval, 558). preciso reconhecer, contudo, que semelhana entre os autores pra por a. Basta, com efeito, ver em que sentido Dardot e Laval concebem essa ?histria da luta?, cuja referncia sobretudo Foucault, para ver se afastarem do problema e da sada dados por Castoriadis ou Lefort.

25O texto segue: ?Para ultrapassar esse limite imposto pela organizao e pela luta dos trabalhadores, o capital tender a aumentar a produtividade submetendo o trabalho ao sistema das mquinas e reorganizando o processo de trabalho? (565).

26Como sugere, por exemplo, Ruy Fausto, em Marx, lgica e poltica, I e II.

27Os autores no deixam de flertar com esse lugar comum a respeito da dialtica: ?Lendo Marx, adquirimos antes a impresso de que a derrota do operrio consumida pelo fato mesmo de sua condio de material. Mas isso, com o adendo que a dialtica ir transformar a uma derrota sempre renovada em vitria assegurada? (p.587). De passagem, observe-se que esse suposto necessitarismo no to evidente nem mesmo em Hegel.

28Cf. ainda pp. 11, 14, 226, 262.

29Para um bom comentrio desse texto, cf. Batrice Han, Lontologie manque de Michel Foucault, Paris, Millon, 1998, pp. 264-6.

30Ver tambm Batrice Han, op. cit., pp. 291-296.

31Alis, diro: ?a reflexo conduzida por Michel Foucault sobre a estratgia e o poder est o mais prxima possvel daquilo que faz a originalidade de Marx? (225).

32Balibar, E., op. cit., p. 70. Evidentemente, tal concepo de relao traz consequncias para a idia de subjetivao como ?constituio de si?. Vimos que em Foucault e em Hegel no h uma essncia dada anteriormente ao processo ou s prticas. Mas essa semelhana epidrmica esconde diferenas de base: em Hegel, deve-se dizer que ela est pressuposta, e no ausente, e por isso o processo uma constituio de essncia. Isso muda tudo. Em seu belo livro sobre Foucault, Batrice Han notou essas diferentes concepes de ?constituio de si? operando em Hegel e Foucault, mesmo que tenha deixado na sombra o ncleo conceitual que afasta as duas solues. ?A constituio de si?, ela diz, ?precisamente no pensada por Foucault na perspectiva dialtica de uma teleologia que permitiria ordenar essas ?formas de subjetividade? [ie, suas formaes histricas] segundo uma perspectiva de conjunto que culminaria em sua totalizao, ou ver a a antecipao da realizao progressiva de uma essncia qualquer do homem?. De uma forma a outra da subjetividade, haveria a criao de um algo inteiramente outro: ?essa insistncia sobre uma alteridade que se recusa a toda mediao (?totalmente outro?), e uma novidade (?uma total inovao?) que figura como comeo radical, basta para contradizer a perspectiva de uma Aufhebung em virtude da qual... nada seria jamais verdadeiramente ?novo sob o sol?? (Han, Batrice. Lontologie manque de Michel Foucault, Paris, Millon, 1998, p. 267). Descontado, claro, o lugar comum sobre a dialtica erigido como inimigo, tem-se a a caracterizao de uma ?constituio de si? que no procede por mediaes ? mas precisamente porque no interioriza a relao, conserva-a no exterior.

33Ou melhor, at . Mas esse seria o lado inatual do Marx da ?lgica do capital?. Sobre isso, ver abaixo.

34Idem, p. 681.