revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

Caetano VELOSO

Um voto

 

 

Votei pela primeira vez aos 18 anos. No Marechal Lott. Meu pai era um funcionrio dos correios que se sentia estimulado a trabalhar com ardor e honestidade justamente pelo carter pblico do servio. Tendia esquerda mas desconfiava de Stalin. Entendia que Getlio era importante por causa das leis trabalhistas mas abominava Filinto Mller. Manteve um retrato de Roosevelt na sala por alguns anos. Lott ter resistido tentativa de golpe quando da eleio de Juscelino era motivo suficiente para que meu pai votasse nele. Mas eu no precisava ouvir suas opinies para escolher candidato: Jnio me parecia algo grotesco, um comediante desprezvel que apontava para o vazio. Eu me perguntava como havia gente disposta a votar nele. Dcadas depois, ouvi narrativas fascinantes de cenas do sucesso paulistano da campanha de Jnio feitas por Jorge Mautner, cujos gestos e entonaes j implicavam complexas anlises. Mautner estava longe de ter por Jnio o desprezo simples que eu lhe dedicava. Filho de refugiado judeu da ustria nazificada, ele sentia um sombrio fascnio pelas figuras polticas que crescem com aparncia ridcula. Mas eu prprio, ainda hoje, tenho a ingnua certeza de que personalidades como a de Hitler nunca pareceriam merecer meu respeito, mesmo que eu tivesse nascido e crescido em seus pases. Trump ou Putin, Berlusconi ou Kim Jong-Un. Aos 18, eu pouco sabia de Lott. Mas era suficiente que meu pai mostrasse confiana nele e que ele fosse o oposto de Jnio como tipo humano para que eu cumprisse com alegria o dever de votar.

Numa conversa sobre as habilidades musicais de Alexandre Pires, ainda na poca do grupo S Pra Contrariar, Joo Gilberto me perguntou se eu j tinha ouvido a me de Alexandre cantar. “Ela canta como uma americana” ele dizia com entusiasmo. “Como uma americana” significava ser dona de afinao perfeita, ter um sentido rtmico rico e visceral, e uma percepo harmnica espontnea. As conversas de Joo abrem amplssimos espaos mentais. Dizer que a me de Alexandre cantava como uma americana era frisar que o adestramento musical e a ambio esttica foram desenvolvidos ao mais alto grau no ambiente da msica popular dos Estados Unidos. Mas ecos de outras afirmaes feitas por Joo a esse respeito, e em contradio com essa, punham o julgamento numa perspectiva inaugural. Anos depois, uma declarao minha, feita em entrevista, de que a msica popular americana era a melhor do mundo provocou revolta em Hermeto Pascoal. Este me desqualificou como msico por causa dessa fala. Claro que ele tinha razo ao avaliar minha musicalidade. Mas respondi que no era eu quem dizia aquilo, a prpria msica de Hermeto, to grandemente formada no ambiente jazzstico,  que o atestava. Pois bem, toda essa discusso ? e sua superao ? estava j embutida no comentrio de Joo sobre a me de Alexandre. Ele falava como que com uma autoridade vinda de um futuro grandioso, do Quinto Imprio de Vieira, da Era de Aquarius, do mundo aberto ao Ser do Heidegger de Luiz Carlos Maciel. E no entanto estava ali, pedestre, humilde, fosco. 

Os programas de calouros do sculo 21, reality shows eivados de sentimentalismo e suspense forado, parecem negar a fora dessa tradio de adestramento e inventividade esttica, expresses da energia histrica dos EUA. Talvez eu esteja me arriscando aqui a desprezar o que acontece de inveno no ambiente contemporneo da indstria da msica no mundo rico de fala anglo-sax?. D’Angelo, Bjork, James Blake, Kanye West, Joanna Newsom, tantos parecem provar que os arreganhos dos reality so parte saudvel do equilbrio de foras que propicia tal opulncia. Por outro lado, a crtica frankfurtiana da indstria cultural h muito descreveu o que parecia riqueza como prova de decadncia da vida humana no estgio avanado do capitalismo (o que, como notou Safransky, aproxima, de modo no mnimo irnico, Adorno de Heidegger). Isso poria j a cano americana dos anos 1930 no mesmo nvel de American Idol. Pessoalmente, nunca aderi ao pessimismo de Adorno, embora ache mais graa e sentido em suas caricaturas das pretenses do jazz do que so capazes mesmo seus discpulos. E essas caricaturas iluminam minha apreciao de truques rtmicos do hip-hop americano de hoje, mesmo ? talvez principalmente ? nos artistas que mais me atraem e encantam. De qualquer forma, detecto diluio da potncia nas firulas e gritos premiados do The Voice. Joo Gilberto, que estava celebrando justamente caractersticas semelhantes no canto da me de Alexandre Pires ? ao mesmo tempo vendo ali exemplo de quando grito e firula so parte integrante de estilos nobres, como os de Sarah Vaughan ou Aretha Franklin, e a importncia disso ter sido atingido por uma brasileira ? , relanava assim seu programa grave de concentrao que d nossa msica sua responsabilidade real.

Se no fosse uma blasfmia parodiar “Paratodos”, de Chico Buarque, cano que j me fez chorar quando a ouvi, ainda indita, na casa do seu autor ? e voltou a me levar s lgrimas no final do recente documentrio feito por Miguel Farias sobre ele ? esta seria minha verso de sua primeira estrofe: 

O meu pai era baiano
Meu av era baiano
O meu bisav, baiano
Meu tatarav, por certo
E meu mestre soberano
o baiano Joo Gilberto.

Joo Gilberto tomar o lugar de Tom na minha verso cmica de “Paratodos” coerente com a escolha de Joo como ncleo do fenmeno histrico que foi a bossa nova. Jobim , como escrevi num release para um disco seu, o sol da nossa msica. Ele a enriqueceu com o mais exuberante conjunto de canes, fez a mais completa homenagem tradio de Pixiguinha, Noel e compositores das favelas e dos carnavais, assim como dos sertes do Nordeste, enquanto simultaneamente enriquecia a linhagem histrica nascida no impressionismo francs e cultivada na moderna cano americana. Escreveu os mais belos e econmicos arranjos para os sambas que Joo gravou, criando peas de cmara que eram ao mesmo tempo exemplos de singeleza popular. A sua a obra de um gigante que no tem competidores. Minha eleio de Joo Gilberto como figura nuclear vem do fato de este ser, antes do sol, a escurido que precede a criao da luz e o momento em que esta surge. Ele punk, contracultural, rock, Webern, rebeldia permanente. Nada se iguala produo cancional de Tom Jobim, mas Joo ensinou marxismo a Srgio Ricardo e me pediu para entender os olhos azuis de Garrastazu Mdici. Como disse Memlia, a me de Chico, os outros fingem que so malucos, mas Joo maluco de verdade. Foi sua voz que ouvi e que mudou a minha vida. A mesma voz mudou a vida de Tom Jobim. No h escolha que eu faa que no se funde na memria do momento dessa mudana. Eu j tinha ouvido Joo quando votei em Lott.

Quando iniciei os ensaios para Dois Amigos, Um Sculo de Msica, pensei que ter aceito o convite do contratante europeu para fazer uma turn ao lado de Gil fosse ser, afinal, mero caa-nquel: repertrio redundante e absoluta impossibilidade de eu tocar um violo ao menos aceitvel ao lado do meu colega. Precisei enfrentar umas quatro apresentaes para admitir que havia um pouco de “Paratodos” no nosso show. Um pouco muito. Hoje, h o sentimento de que o Brasil est acabando, de que no se pode suportar outra dcada perdida, de que descer tanto quando se esboava aprender a subir prova de que nunca sairemos do buraco em que sempre estivemos. O cu do mundo. Nossos shows nos diziam que h uma luz mais alta apontando para outras possveis vises. Gil tinha sado da turn intitulada Gilbertos Samba, em que retomava o repertrio de Joo Gilberto, e eu resistia a que ele parasse com ela. Eu queria que o mundo o visse tocar “ Luxo S” ou “Voc e eu” com os estudos do ritmo do samba feitos por Domenico Lancelotti e Bem Gil em aparatos eletrnicos ? e a inspirao harmnica do magistral garoto Mestrinho no acordeom. Bom, o show chegou ao menos aos Estados Unidos, onde, no New York Times, foi criticamente consagrado. Mas Gil queria fazer o que o contratante europeu propunha. Honrava-me estar perto dele. Mas comecei hesitante. O que aprendi com ter feito o Dois Amigos no tem preo.

O disco Gilbertos Samba, que motivara o show de mesmo nome, dizia-se homenagem a Joo Gilberto, mas no show que se percebia com clareza que Gil sendo mais intensamente Gil reafirmava Joo. Diante do concerto o prprio disco ganhava esse sentido na memria do ouvinte. No nosso Dois Amigos, era o Gil ps-Gilbertos que se reunia a mim. Nossa luz e nosso breu vm muito de sermos baianos. Neste momento brasileiro, os conseguimentos dos membros do grupo que chegou ao Rio na esteira da substituio de Nara Leo por Maria Bethnia no espetculo Opinio tm tido muita importncia na difcil conformao da minha viso das coisas da poltica e da histria.

O show Estratosfrica, que Marcus Preto concebeu para Gal Costa, com a banda dirigida pelo baterista Pupilo, um acontecimento que enche a alma e mostra ser a histria brasileira embolada mas teimosa. Vim da Bahia com Bethnia, Gal e Gil na cabea e no corao, como promessas de transformao nacional. Se eles esto mostrando foras e nenhum sinal de desistncia, concluo que o Brasil vivel. Estas so escolhas ntimas: eles so partes do meu corpo. Mas fenmenos como o do baile de favela, da afinao e propriedade de artistas como Pablo ou Anitta, do ciclo de filmes pernambucanos como O som ao redor e Boi Neon, assim como a Regina Cas do profundo Que horas ela volta, de Anna Muylaert, me dizem a mesma coisa. 

Ver a Escola de Samba Estao Primeira de Mangueira voltar a ser campe num desfile que homenageava Bethnia ps em dvida a constatao de que nenhuma fora nos salvar. H anos que sonho em fazer uma antologia da ax music. Outro dia, conversando com um amigo economista, perguntei por que no se fazia um estudo da economia do carnaval baiano. H ali um exemplo de empreendedorismo vinculado a uma expresso esttica que representa algo essencial na cultura brasileira. Numa cano que compus h mais de 10 anos, digo:

Comprar o equipamento e saber usar
Vender o talento e saber cobrar, lucrar.

Vi Moraes Moreira opor-se ao ax dizendo que, com este, ele e outros foram atropelados por empresrios que impunham seus artistas s emissoras de rdio atravs de jab. Isso se parece com o que ouvi de vrios compositores (Ary Barroso frente) nos anos 1950 a respeito do carnaval carioca. “Vender o talento e saber cobrar, lucrar” verso que canto em tom de orao: nenhuma aceitao de desonestidades mas o movimento de intensificar a luz do que luminoso. Ou ser que um nietzscheanismo de rapina que surge aqui? Seja como for, eu no acho que seria melhor se Harmonia do Samba, Daniela Mercury, Ivete Sangalo ou Carlinhos Brown no tivessem surgido. Moraes deveria antes orgulhar-se de ter criado o modelo que deu nisso tudo. Mas bom que ele resista: a pendenga d mais nervo msica carnavalesca da Bahia. A Mangueira algo maior do que os jogos de poder e de grana que se do nas entranhas do carnaval carioca. Ter vencido com Bethnia (a deslumbrante e digna Bethnia, artista e mulher honesta at a medula) diz que podemos afirmar o Brasil. O que em alguns blocos baianos so as antigas cordas, se transformou, no Rio, em muralhas de concreto que separam os que podem pagar muito dos que no podem pagar nada para ver as escolas. Mas no desejo que se negue Mangueira nem Darcy Ribeiro nem Oscar Niemeyer nem Brizola. A afirmao nacional importa. Briguei contra os nacionalistas dos anos 1960 porque eles eram defensivos. A atitude que aprendo com o Psirico me leva a dizer que Liv Sovik, ao escrever “tm razo os que contrastam os EUA com o Brasil, valorizando o quadro brasileiro: para os brancos, especialmente, ele muito melhor”, soa para mim como algum trabalhando para a CIA. Roberto da Matta arremata que somos to preconceituosos que nunca precisamos de “rotinas segregacionistas”. Os colonizadores ingleses dos impressionantes Estados Unidos convenceram-no de que, diferentemente de ns, tiveram de esforar-se para produzir algum racismo. O nosso espontneo.

Quando votei em Lott eu j achava que as questes de raa teriam de ser levadas em conta quando se quisesse enfrentar a injustia social. Assim como as de gnero: eu tinha lido Simone de Beauvoir e O segundo sexo articulava as ideias sobre a opresso da mulher que me surgiam na mente desde a pr-puberdade. E o Sartre do Orfeu negro. Quando conheci Gil, em 1963, impressionou-me a total ausncia, nele, de qualquer trao de pensamento ou sentimento a respeito da situao do negro entre ns. Eu amava e at invejava sua percepo naturalmente no racialista da vida. Mas sentia tambm uma ponta de impacincia.

Jnio venceu, fez muita papagaiada, renunciou, e veio a ditadura.
Quando voltamos a poder votar, escolhi Brizola. Ele tinha voltado do exlio falando nas “perdas internacionais” e citando no sei que exemplo da Austrlia. Parecia trazer o que o PT de Lula no apresentava: uma concepo da luta contra a desigualdade sem restringir-se viso dos grupos organizados do operariado do ABC paulista e dos intelectuais da USP. No que a criao do PT, exatamente nesses ambientes, no me empolgasse: cheguei a usar a estrelinha na lapela. Mas nunca entrei em nenhum partido. O que me parecia bvio que o surgimento do PT modernizava a cena poltica nacional. Dentro desse mundo renovado que eu queria ver Brizola atuar. Collor era uma verso nova dos histrinicos de que sempre desconfio. Fiz campanha para Brizola e vi que Collor preferiria concorrer com Lula no segundo turno: com seu eleitorado restrito aos sindicatos, aos jovens das grandes cidades e a senhores letrados, ele seria mais fcil de ser vencido do que Brizola, com sua ameaa getulista de reunir reas mais amplas. Quando abriu-se o segundo turno, voltei-me para Lula e participei de comcio na Praa da Apoteose. Foi a primeira vez que votei nele. Collor elegeu-se, sofreu impeachment, Itamar Franco o substituiu e convocou a equipe econmica que derrotaria a inflao.

Como tantos brasileiros, votei em Fernando Henrique. Ele era o prncipe de Glauber Rocha, um acadmico de esquerda que dera o brao a Lula na luta contra o regime militar. A figura de Lula deveria, para mim, estar sempre no horizonte, sua presena sentida pelo todo da sociedade. Mas, diferentemente dos esquerdistas que votavam nele, eu tinha perdido a confiana nas revolues que prometem mudar tudo de uma vez: elas levavam a autocracias totalitrias.

Nos anos 1980, Jos Almino mencionou um Unger que escrevia na Folha. Ele era tambm um Mangabeira, ou seja, baiano em alguma medida. Z queria me atrair para o autor. Fui ler um artigo seu na Folha e, desde ento, meu interesse por ele s fez crescer. O artigo chamava a ateno justamente para as limitaes do PT por ser um partido das minorias trabalhadoras organizadas. O PDT de Brizola teria abrangncia maior. Passei a citar Mangabeira em todas as entrevistas que dei. As referncias a seu nome nunca eram reproduzidas quando as entrevistas eram publicadas. Isso durou mais de dcada. O que me irritou e fez aumentar minha curiosidade pela figura do articulista. Fui buscar coisas dele ou sobre ele. Devagar. Por causa de minha teimosia em citar seu nome, Mangabeira me procurou. Quando tentou uma pr-candidatura presidncia, gravei uma curta fala para anncio na televiso. O que me interessa em Mangabeira sua crena num experimentalismo que realize revoluo sem trauma blico, num gradualismo que no quer dar uma face humana ao capitalismo liberal mas transformar instituies de modo a superar a opo entre render-se aos especuladores financeiros ou aos crentes no determinismo do marxismo vulgar. E sua certeza de que o Brasil oportunidade para tais experimentos. Ele a nica figura da esquerda que parece compreender a importncia do liberalismo poltico sem desvincul-lo totalmente do liberalismo econmico, como faz Bresser Pereira em seu ltimo livro, de modo didtico mas excessivamente simplificador. Mangabeira o nico esquerdista brasileiro que cita John Stuart Mill. Seu texto ministerial sobre economia, em que fala de empreendedorismo de vanguarda, mostra como ele pretende ver a energia do povo brasileiro sendo canalizada de modo a gerar ondas de criatividade que levem o Brasil grandeza. Ele tambm a nica voz nas esquerdas a perceber a importncia do crescimento das igrejas neopentecostais. Isso coincide com minha percepo de que os evanglicos ensinam as pessoas comuns a nobreza da prosperidade: trazem uma lio liberal. Descartar as contribuies de Mangabeira me parece mais um sintoma do aspecto doentio de nossa vida intelectual.

Votei em Marina Silva e declarei o voto. O projeto PT dava mostras de esgotamento. Marina, com uma trajetria de esquerda autntica e coerente desde o comeo, uma figura de mulher cafusa, ligada s lutas ambientais desde sua colaborao com Chico Mendes, evanglica, que cresceu analfabeta mas estudou com esforo e inteligncia notveis, uma personalidade que o Brasil tampouco tem o direito de descartar. Conheo a divergncia entre sua posio e a de Mangabeira. Quando este publicou “O que a esquerda deve fazer”, participei do evento de lanamento em So Paulo. Eduardo Gianetti, que foi assistir conversa pblica de divulgao da obra, queixou-se comigo depois: “Pena vocs no terem aberto a discusso para a plateia: eu perguntaria por que no h uma nica meno questo ambiental no livro do Mangabeira”. Achei e acho pertinente a pergunta de Gianetti. Mas Mangabeira indispensvel. E quando surge uma orientao dele a respeito de como deve se comportar um governo brasileiro em relao ao problema ecolgico, como aconteceu em seu artigo sobre a crise publicado recentemente no caderno Ilustrssima da Folha de So Paulo, vejo que vale a pena esperar por suas observaes. As palavras finais desse artigo, alis, so arrebatadoras. Sei que h a fundamentada desconfiana da figura do intelectual que decide ser poltico. uma pergunta que sempre se coloca, a comear pelas experincias de Plato. Mas Unger, que v o socialismo, o liberalismo e a democracia como braos profanos do cristianismo, apresenta propostas prticas que convidam discusso e encontram silncio como resposta. Suas advertncias sobre encarar a crtica da “sentimentalizao das trocas desiguais” (expresso excelente que ele cunhou e tanto nos ajuda a pensar a sociedade brasileira) ? encar-la mas no parar nela ? so arma para nosso esprito.

Votei em Ciro Gomes na eleio de 1998: eu no era a favor da reeleio. Agora, sabendo-o possvel candidato, penso em voltar a faz-lo. O discurso de Mangabeira em sua volta ao PDT, que vi na internet, me convenceu. A entrevista de Marina Folha era honesta e amvel. Mas a que ela deu ao Valor depois muito melhor. Mais uma vez, senti que ter a figura daquela mulher representando nosso pas no mundo algo com que meu esprito de artista pop sonha desde sempre. Mesmo assim, se tivesse de decidir hoje entre o que li ali e o que ouvi Mangabeira dizer sobre a candidatura de Ciro, acho que ficaria com este ltimo. Sinto mais integridade e inteireza pessoais nela. E, diferentemente de meus amigos esquerdistas, no rechao o pensamento poltico-econmico de Eduardo Giannetti: ele fez sua redescoberta do Brasil de modo tambm peculiar. Seu dilogo com o liberalismo econmico crtico (concordo que mais nos livros do que nas entrevistas ligadas campanha de Marina) ? e ele sabe buscar com sutis formas de afirmao nacional. Mas tendi mais para Ciro. Em grande parte por causa de Mangabeira. No que Mangabeira v governar o pas atravs dele. Imagino que Ciro poder melhor que ningum aproveitar o que Mangabeira tem para dar.

Um voto s um voto. Uma pessoa conhecida do pblico declarar em quem vota pode ter alguma repercusso (inclusive negativa). Creio que vale a pena tentar expressar de pblico os meandros por que passa uma escolha minha. Tenho a iluso de que isso pode enriquecer os dilogos internos que alguns poucos outros venham a ter quando se puserem a questo. Lott, Joo Gilberto, Mestrinho, Adorno, tantas entidades no terreiro para explicar e confundir meu ensaio de voto.

Achei odiosa a campanha de desconstruo de Marina liderada pelo PT quando das ltimas eleies. Ao saber da priso de meu colega Patinhas (o Joo Santana), senti tristeza e mal-estar, mas tambm surgiu um “bem feito” no fundo da minha alma, principalmente por causa da campanha contra Marina. Mas votei em Dilma contra Acio. Eu tinha me comovido diante da urna quando votei em Lula contra Serra. Sabia que era a hora dele ? e nunca me arrependi. Em Dilma foi um voto frio. Os meandros: de cara, o PSDB nunca antes tinha sido to completamente tomado pela direita. Os fanticos malucos que pediam a volta da ditadura; colegas meus em euforia conservadora; articulistas reacionrios ? minha necessidade de destoar dessa fauna era visceral. Mas, diferentemente de quando votei em Lula na eleio que o levou presidncia, meu voto em Dilma era problemtico. Cheguei a dizer ao amigo Silvio Osias que, em certa medida, era um voto contra o PT: dada a combinao da queda do preo das commodities com as decises nada inspiradas de Dilmantega, quem quer que se elegesse no apertado pleito de 2014 encontraria pesadas dificuldades para tocar o barco. Vencesse o candidato opositor, a essas dificuldades se somariam os movimentos sociais, a jovem esquerda letrada das cidades grandes e o culto populista ao partido de Lula nos rinces do interior. Que a prpria Dilma enfrentasse o problema. Li a Construo de Bresser. Conversei com Andr Nassif e achei que Dilma deveria convidar Nelson Barbosa para a Fazenda. Como Mangabeira, achava que o ajuste fiscal se impunha. Calculava que um desenvolvimentista estaria em sintonia natural com Dilma e poderia fazer o ajuste sem uma grita contra to macia como a que se deu com a escolha de Joaquim Levy. O governo teria mais calma para pr em prtica o que era preciso. Ter chamado Levy demonstrou inabilidade. Prova-se agora que reaes das organizaes polticas e da sociedade no faltam: a tentativa de impeachment apenas a ponta do iceberg. No quero ver o Brasil cindido. Estou certo de que desejo muito mais a grandeza do Brasil do que a prova da teoria da mais-valia ou o xito total do capitalismo. Minhas motivaes so de sonho de afirmao nacional, na crena de que podemos criar algo que ensine ao mundo a ternura de que falam tanto Mangabeira quanto Giannetti. A volta de Lula? O pensamento sobre 2018 trouxe a hiptese. Lula um lder de grandeza incomparvel, talvez s Getlio. Seu discurso em resposta estranha deciso do juiz Moro de expedir uma conduo coercitiva para lev-lo a depor sem que ele tivesse se negado a faz-lo mostrou um poltico potente. Pouco depois, ele j aparecia como um ex-lder. Entristece, mas a frmula de liderana populista algo que me sugere retrocesso a velhos males latinoamericanos.

Cristvo Buarque saiu do PDT. Considero uma perda para o partido e para o Brasil. Escrevo em meio a primeiras pginas de jornais e telas de TV gritando as acusaes contra Lula e Dilma que Delcdio Amaral teria feito e dando conta do mandado expedido pela Lava Jato contra o ex-presidente. Penso que a leitura de Demtrio Magnoli realista: o gesto do juiz responde substituio do Ministro da Justia sob a queixa do PT de que ele no “controlava a Polcia Federal”. Mas tem muita pinta de gesto miditico e pode ser apenas um teste. Estou com os que acham errada a deciso de Moro. Tenho como base o que motivou a luta esttica em que me meti desde moo: superar a brutal desigualdade que fende a sociedade brasileira. Jess Souza pode ser Tosco, com seus “posto que”, que no parecem homenagem ao famoso escorrego de Vinicius, mas acima de todas as sofisticaes da inteligncia est o fato de que o Brasil sempre decidido pela miniminoria de privilegiados. Chega. Lula voltar como Getlio, nos braos do povo, ou seu desgaste se provar maior do que seu mito? No calor da hora: o MP paulista pede sua priso preventiva. Sinto-me mais perto do que nunca dos que veem nessa onda o interesse do privilgio, o aspecto horrendo do organismo Brasil defendendo-se de possveis mudanas. Por isso, carioca, votarei em Freixo. No quero que o Brasil ensine ao mundo como perpetuar a pobreza, como desencadear linchamentos, como manter jovens negros presos, como ser cruel sem perder o charme. Por tudo isso, gasto tempo falando sobre voto, num momento em que tantos parecem desqualificar os ritos democrticos. Com ruas limpas e sinais de trnsito respeitados por muito menos carros do que se usam hoje, j que teremos transporte pblico abundante e de qualidade movido a energia no poluente, o Brasil deve ter o que sabemos que pode ter para ensinar ao mundo. J estamos h tempo demais esperando que sucessivos agravamentos da crise produzam avano. At aqui, as crises s tm gerado crises. Escrevo como cantor, baiano, eterno suspeito por fugir das cartilhas e falar demais, com o nimo de quem pensa que o Brasil da Mangueira de Bethnia tem outro destino que no o simples fiasco.

 

    
    

 






























fevereiro #

9

ilustrao:
Antonio Malta CAMPOS